Artigo de Frederick Smock* para o The Courier-Journal, de Louisville, Kentucky
Por ocasião do 40º aniversário da morte de Thomas Merton, quero pensar sobre o silêncio. Sem dúvida, Merton fez voto de silêncio, e foi ocasionalmente silenciado pelo Vaticano. Mas não estou pensando nessas formas de silêncio. Quero, antes, pensar sobre o silêncio e a arte do poeta.
Boa parte da vida do monge é passada em silêncio. Boa parte da vida do poeta também transcorre em silêncio – o poeta só passa uma fração de sua vida escrevendo poemas. Merton era tanto monge como poeta, e, assim, conhecia bem o silêncio. A exemplo da meditação e da oração, a poesia é rodeada de silêncio. A poesia começa e termina em silêncio. O silêncio também é inerente ao poema, como os silêncios entre as notas na música. Como disse um grande poeta chinês, Yang Wan-li, mil anos atrás, “O poema é feito de palavras, sim, mas, tirando as palavras, o poema permanecerá”.
Contudo, quando pensamos em silêncio, não necessariamente pensamos em Merton. Ele foi um homem loquaz e um escritor prolífico. Continua a publicar postumamente. Sempre parece estar falando conosco. As prateleiras rangem sob o peso de sua obra que se acumula. No final da vida, contudo, Merton lamentou o fato de ter escrito tantos editoriais, e não mais poemas e orações – formas que participam do silêncio. “Vejo cada vez mais a necessidade de abandonar minha própria ‘carreira’ absurda de jornalista religioso”, escreveu em seu diário (2 de dezembro de 1959). “Parar de escrever para publicação – exceto poemas e meditações criativas.”
“O que realmente quero fazer?”, perguntou-se Merton em seu diário (21 de junho de 1959). “Longas horas de tranqüilidade no bosque, lendo um pouco, meditando muito, subindo e descendo descalço pelo chão coberto de agulhas de pinheiro.” O que alguém confia a seu diário é, ao mesmo tempo, a versão mais reservada e mais autêntica de si mesmo. Os livros escritos para consumo público não são enganosos, apenas não vêm do mais profundo sentimento. Na festa de Santo Tomás de Aquino, (7 de março de 1961), Merton escreveu em seu diário: “determinado a escrever menos, a desaparecer gradualmente.” Acrescentou, no final dessa anotação, que “a última coisa que desistirei de escrever serão este diário, cadernos e poemas. Mais nenhum livro piedoso.”
A vida é uma jornada em direção ao silêncio, e não só o silêncio da morte. Os jovens falam muito – são barulhentos. Os idosos são reticentes. Afinal, há tanto a ponderar. Os mais velhos tendem a segurar a língua. Conhecem a sabedoria que há em conter-se. O fato de ter visto muitas coisas leva a reservar o julgamento. Nesta era moderna, quando o noticiário e a política são dominados por rostos que falam sem parar, o silêncio se torna um bem precioso. A mera ausência de fala já soa como silêncio. Mas o verdadeiro silêncio é uma presença, não uma ausência. Uma plenitude. Uma riqueza cujo valor depende da pureza da intenção, não apenas da falta de distrações.
Em anotação posterior em seu diário (4 de dezembro de 1968), Merton escreveu sobre a visita às grandiosas estupas de Buda e Ananda em Gil Vihara, Sri Lanka. “O silêncio dos rostos extraordinários. Os estupendos sorrisos. Imensos, e, no entanto, sutis. Cheios de toda possibilidade, questionando nada, sabendo tudo, rejeitando nada…” Ao falar da figura de Ananda, Merton conclui: “Diz tudo. Não precisa de nada. Como não precisa de nada, pode ser silenciosa, despercebida, não descoberta.” Ele também fotografou essas estátuas, focalizando-se em sua serenidade beatífica.
Quando estamos silenciosos, podemos ouvir o vento nas árvores e a água no arroio; isso não é mais eloqüente do que qualquer coisa que possamos ter a dizer? A respeito da vida no eremitério recém construído, Merton escreve em seu diário (24 de fevereiro de 1965): “Não posso imaginar outra alegria na terra além de ter um lugar assim e ali estar em paz, viver em silêncio, pensar e escrever, ouvir o vento e todas as vozes do bosque, viver à sombra da grande cruz de cedro, preparar-me para a morte...”
É irônico um escritor enaltecer o silêncio? Não mais, talvez , do que elogiar a ignorância, que é o que Wendell Berry faz em seu poema “Manifesto: A Frente de Libertação do Agricultor Louco.” Berry escreve: “Viva a ignorância, pois o que o homem não encontrou, também não destruiu.” Então, talvez devamos enaltecer o silêncio, pois o que o homem não disse, não mentiu.
O louvor ao silêncio perpassa as meditações de Merton. Só um exemplo: A respeito de seu ensino aos noviços em Gethsemani, escreveu (04 de julho de 1952) que “entre o silêncio de Deus e o silêncio de minha alma ergue-se o silêncio das almas a mim confiadas.”
Sem dúvida, desde sua morte, Merton tem estado em silêncio – se não silenciado. Também há o suave sussurro, no limiar ao audível, de poemas e orações que ele não viveu para escrever.
*Frederick Smock é diretor do Departamento de Inglês da Universidade Bellarmine. Seu livro mais recente é Pax Intrantibus: A meditation on the Poetry of Thomas Merton (Broadstone Books).
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10 dezembro 2008
Silêncio e a arte do poeta
Uma carta sobre a morte de Thomas Merton
Sepultamos Padre Louis [Thomas Merton] ontem atrás da igreja do mosteiro em uma encosta sob um cedro, de onde se tem uma vista ampla das montanhas cobertas de bosques que ele amava. Estranho, pois só ao escrever isto percebi que ele tinha mesmo de ser sepultado lá, onde não há muros obstruindo a vista. A parte do cemitério cercada pelo muro logo atrás da igreja está cheia há alguns anos. Padre Louis está em um lugar aberto de onde se pode ver a beleza do campo ao redor. Combina.
O funeral foi às 15h30 e começou pontualmente. Já estava quase escuro quando chegou o momento de o colocarmos na terra, e caíam umas poucas gotas de chuva. Estava úmido e o frio era em torno de 1º abaixo de zero, diria eu.
O rito foi alegre – nenhuma outra palavra serviria. Havia cerca de quarenta concelebrantes e o arcebispo estava presente, mas não quis ser um deles. Disse que era algo nosso. Na nave, um bom número de pessoas, convidadas, representantes dos mundos em que Padre Louis atuava: escritores, poetas, artistas, pacifistas, freiras, padres, editores, pessoas comuns.
Ele faleceu longe, em meio à preocupação com a vida monástica no Oriente. Sua morte foi confusa; quero dizer, não temos total certeza do que ele morreu: enfarto, acidente com o ventilador elétrico? Mas nos basta o veredicto de que a morte foi acidental. Na confusão inicial, falou-se em fazer uma autópsia. Imagine tentar providenciar algo assim pelo telefone com Bangkok. Isto atrasou seu retorno. Houve demoras frustrantes, e ele chegou aqui bem na hora de seu funeral. O caixão não foi aberto, de forma que tive mesmo razão quando, ao vê-lo partir, pensei: “Nunca mais o veremos.”
Padre John Eudes, nosso próprio médico, olhou-o em Louisville. Que eu saiba, Padre Louis é o único sepultado em um caixão em nosso cemitério, o que combina bem com ele! O caixão era um desses monstros típicos que você tem a impressão de terem saído dos estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer. As leituras do Livro de Jonas na Missa foram apropriadas. Diante de nós estava a baleia com Padre Louis dentro.
Padre Dan Walsh, seu primeiro laço com Gethsemani, fez uma boa homilia, sóbria e digna. Tudo correu bem e foi rico em coisas significativas para nós. Enquanto os padres tiravam os paramentos para o enterro, ouviu-se um interlúdio de Mozart que assentou bem no coração.
Não sei como resumir aquele homem; essa idéia nem vem ao caso. Salvo para dizer que ele era uma contradição. Viveu no centro da cruz, onde os dois braços se encontram. Talvez , poderíamos dizer, no coração da vida. Imagino que em nenhum outro lugar a contradição é reconciliada.
Ele era um problema para muitos aqui e em outros lugares. Sei qual é a razão do problema: quero dizer, as tensões aterrorizantes que aquele homem suportou com um tipo de coragem que só o poder de Deus possibilitava. Quando eu estava ao lado dele, sempre sentia que Deus estava perto. E estar perto de Deus é estar perto de algo ao mesmo tempo maravilhoso e terrível. Como o fogo. Queima. As pessoas ficavam sempre tentando sair do lugar que ele criava (simplesmente sendo o que era) para elas encaixando-o em uma ou outra categoria e fazendo com que ele ficasse ali. Dava tão certo como engarrafar neblina! Decidiam que ele era “monge” e o que o monge deveria fazer. Então esperavam que ele o fizesse. Mas ele não fazia. Não podia.
Quando se tornou eremita, decidiam o que é eremita e então viam se ele estava sendo um bom eremita. E ele não estava! A única maneira como eu conseguia viver com ele era amando-o como um todo, como ele era, com todas as suas contradições, e acho que esta é a única maneira de entendê-lo. Esta era a maneira como ele me amava.
Nunca conheci homem mais alegre, mas com tristezas profundas de que era melhor nem falar. Amava a vida monástica, mas a vivia conforme um estilo todo próprio. Tinha um real amor pela vida solitária, mas ninguém aqui tem o amor que ele tinha pelas pessoas, pelo mundo que Deus fez.
Estava acima de tudo que era trivial e miúdo, mas se mantinha a par de tudo e sabia tudo o que estava acontecendo. Podia ser duro como qualquer pessoa, mas era suave e terno como uma criança com um passarinho. Podia ser loquaz e leve, mas também congelar você com sua intensidade e ardor. Seu andar era lépido como o de um homem de vinte anos, mas não conheço muitos que tenham seu senso de compaixão. Amava o mosteiro, mas era crítico de suas fraquezas e tolices. Discutia e argumentava com seu abade assim como um advogado astuto defende uma causa perdida, mas era obediente até o cerne de seu ser. Sua obediência foi testada várias e diversas vezes, e encontrada pura.
Não consigo continuar. Não se recebe com freqüência esse tipo de pessoa das mãos de Deus. Ele é uma testemunha viva de Deus, de Gethsemani, da vida monástica, da Igreja, do mundo. Louvado seja Deus em seus santos agora e para sempre. Amém.
* Monge de Gethsemani, noviço de Thomas Merton e seu confessor nos últimos anos de sua vida.
24 junho 2007
Amigos de Portugal

Eiras, uma aldeia de Portugal e uma das 51 freguesias da Vila de Arcos de Valdevez, com pouco mais de 300 habitantes é uma das localidades onde reside um leitor das Reflexões de Thomas Merton!
É significativo o número de blogs sediados no nosso país irmão que referenciam nosso blog e atraem a cada dia mais admiradores dos escritos de Thomas Merton.
31 janeiro 2007
Merton aos 50 anos
Anotação de Merton em seus diários, em 31 de janeiro de 1965, quando completou 50 anos de idade. Já passando bastante tempo no eremitério, lá passou a viver em tempo integral a partir de 15 de agosto de 1965, na festa de São Bernardo de Claraval: “ Recolhido em minha casa, repousarei junto dela, porque sua convivência nada tem de desagradável, e sua intimidade, nada de fastidioso; ela traz consigo, pelo contrário, o contentamento e a alegria (Sabedoria 8,6).
Não posso imaginar maior causa de gratidão em meu qüinquagésimo aniversário do que ter acordado neste dia em um eremitério! (…) Ontem à noite, antes de me deitar, percebi o que a solidão realmente significa: é quando as cordas são largadas e o barco não está mais atado à terra, mas ruma para o mar sem amarras, sem restrições! Não o mar da paixão, mas, ao contrário, o mar de pureza e amor que é sem preocupação. (Em meio ao frio e à escuridão, ouço o toque do Angelus no mosteiro.) O belo resplendor de uma jóia no mel da luz do lampião. Festa!”
The Intimate Merton, editado por Jonathan Montaldo e Patrick Hart, OCSO
(HarperSanFrancisco, San Francisco, CA), 1999. p. 235-236
No Brasil: Merton na Intimidade (Editora Fissus, Rio de Janeiro), 2001. p. 269-270
Reflexão especial de 31-01-2007
07 maio 2006
The Thomas Merton Center

Fachada da biblioteca da Universidade onde está localizado o Centro.
O The Thomas Merton Center é o local oficial de arquivo da herança literária e artística de Merton, incluindo mais mil e trezentas fotografias, novecentos desenhos em adição aos seus escritos. O centro abriga mais de cinquenta mil ítens de materiais relacionados a Merton.
Em 1967, um ano antes de sua morte, Merton criou o Merton Legacy Trust, e nomeou o Bellarmine College como o repositório de seus manuscritos, cartas, diários, fitas de áudio, desenhos, fotografias e memorabilia. Dois anos depois, em outubro de 1969 a faculdade fundou o Thomas Merton Center, tendo a Coleção como seu ponto focal.
O Centro funciona como um recurso regional, nacional e internacional para estudos acadêmicos e consultas sobre Merton e suas obras e também sobre as idéias que ele promoveu: a vida contemplativa, espiritualidade, ecumenismo, relações com o Leste europeu, paz e justiça social. O Centro patrocina regularmente cursos, conferências, retiros, seminários e exposições para estudiosos, alunos e para o público em geral.
O Thomas Merton Center está localizado no segundo andar da biblioteca principal (W.L. Lyons Brown Library) do campus da Bellarmine University. Fica aberto das 8 às 17 horas nos dias da semana. Mediante consulta podem ser organizadas visitas de grupos no período da noite e nos sábados.A Universidade também possibilita a hospedagem de um pequeno número de visitantes pesquisadores em acomodações de estudantes.
Salão de leitura do Centro
Saiba mais sobre o Thomas Merton Center clicando no link correspondente na seção "Favorites", ao lado.
16 dezembro 2005
Entrega total
O retrato pintado por Jim Cantrell através de fotografias, reproduz com grande fidelidade os traços fisionômicos de Thomas Merton.
Deve-se destacar os detalhes nas dobras da cogula, uma veste branca envolvente, usada nas celebrações litúrgicas. Tem forma de cruz, que simboliza a entrega total do monge a Cristo.
01 setembro 2004
Dúvidas mais comuns
O que é isto que está sendo publicado pela SAFTM na Internet?É o que se chama de um "blog", um tipo simples de "site", onde novo material é acrescentado periodicamente e organizado sequencialmente por data.
Como faço para "navegar" por este "blog"?
É muito simples. Ao ingressar no "blog" imagine ter em mãos um rolo de pergaminho que parcialmente desenrolado para ler as diversas notas que estão sendo acrescentadas. Com o passar do tempo o pergaminho ficará cada vez mais longo. Para ler numa posição mais cômoda, é melhor se concentrar, apenas, numa das notas do "pergaminho principal". Basta clicar à esquerda, na seção denominada "Recent Posts", a nota de seu interesse. Com isso é possível obter o equivalente a uma cópia xerox só dessa nota.
A nota que eu quero não aparece no "Recent Posts". Como faço?
Neste caso vá para o fim da nota e observe um número, com quatro algarismos, que indica o hora em que a nota foi incluída. Fica entre a frase "Incluído por safTM" e um ícone com um pequeno envelope. Clique nesse número e essa página, sozinha, aparecerá na tela.
Que posso fazer com essa nota isolada?
Várias coisas! Além da leitura, pode escrever um comentário sobre ela e ler o que outras pessoas escreveram, (basta clicar em "Postar comentário" que uma pequena janela se abrirá para você escrever o seu texto); pode enviar, automaticamente, um e-mail para uma pessoa amiga recomendando o texto que está lendo (clique na figura que representa um pequeno envelope. Uma nova janela será aberta para você redigir uma mensagem a quem desejar e o destinatário receberá o e-mail com um "link" para ler a nota) e, por último, poderá imprimir a página (basta clicar num ícone ou num menu do seu programa de navegação que comande a impressão).
Como faço para voltar ao "pergaminho principal?
Basta clicar em "Home" que aparece no final da nota OU clicar em "Reflexões de Thomas Merton" no topo da páginal. Ou seja, clicando no topo ou no fim da página, voltará automaticamente para a página principal.
Para que serve aquela seção chamada "Archives"
Serve para guardar outras notas que existem no rolo de pergaminho mas que estão "escondidas" para não ocupar muito espaço na tela do seu computador. É parecido com o "Recent Posts" só que estão armazenadas em gavetas, organizadas pelo mês e dia em que foram incluídas no "blog". Ao clicar num determinado mês, os títulos das notas aparecem.
Como faço para pesquisar um assunto no "blog"? É possível?
Sim, é possível. Repare que há uma barra azul, acima da tela do próprio "blog". No canto superior esquerdo aparece um logotipo (Blogger) seguido por uma abertura em branco. Digite uma ou mais palavras-chave na abertura em branco e clique em "Search this blog". Uma janela se abrirá com todas as notas existentes no "blog" que contêm as palavras que digitou.
Por que algumas palavras estão em inglês?
Porque usamos uma "receita de bolo" distribuída gratuitamente na internet, em inglês, que não exige muitos conhecimentos de programação. Num futuro próximo, à medida que formos aprendendo, faremos ajustes gradativos, e entre eles a tradução de tudo que for possível, para o português.
Ainda tenho outras dúvidas. Como faço?
Envie-nos um e-mail ou, melhor ainda, coloque um comentário, para que outras pessoas vejam sua dúvida. Responderemos, também, através de um comentário e se for de interesse geral, incluiremos a pergunta e a resposta nesta "Dúvidas mais comuns..."
Atualizado em 28-01-2006
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