12 fevereiro 2013

Sobre o sofrimento

“Na verdade, o que muitos não entendem até ser tarde demais é que quanto mais você tenta evitar o sofrimento, mais você sofre, porque coisas pequenas e insignificantes começam a torturá-lo na proporção de seu medo de ser ferido. Aquele que mais se esforça para evitar o sofrimento é, afinal, o que mais sofre, e seu sofrimento vem de coisas tão pequenas e triviais que se pode dizer que já não é de forma nenhuma objetivo. É sua própria existência, seu próprio ser o sujeito e a fonte de sua dor, e sua existência e sua consciência serão sua maior tortura.”

The Seven Storey Mountain, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace, New York), 1948
No Brasil: A montanha dos sete patamares, (Editora Vozes, Petrópolis), 2005, p. 79

05 fevereiro 2013

Civilização de hienas

"Lá embaixo, perto do rio, numa grande construção limpa e branca, havia um colégio dirigido por irmãos maristas. Nunca entrei nele, mas era tão limpo que me assustava. Eu conhecia dois rapazes que frequentava aquele colégio. Eram filhos de uma pequena senhora, dona da confeitaria defronte da Igreja de St. Antonin. Lembro-me deles como sendo muitos simpáticos, agradáveis e bons. Nunca ocorreu a ninguém menosprezá-los por serem muito religiosos. Que diferença em relação aos produtos saídos do liceu!

Quando penso em tudo isso, impressiona-me o tremendo peso da responsabilidade moral que os pais católicos têm sobre os ombros por não enviarem seus filhos a escolas católicas. Os que não pertencem à Igreja não entendem isso. E nem poderiam. Na opinião deles toda essa insistência nas escolas católicas é apenas uma estratégia de ganhar dinheiro e pela qual a Igreja tenta aumentar seu domínio sobre as consciências dos fiéis e sua própria prosperidade material. E, naturalmente, a maioria dos católicos pensam que a Igreja é muito rica e que todas as instituições católicas faturam alto, que todo o dinheiro é guardado em algum lugar para comprar pratos e talheres de ouro e prata para o Papa e charutos caros para o colégio dos cardeais.

Não admira que não haja paz num mundo em que se faz todo o possível para garantir que a juventude de todos os países cresça sem qualquer moral e disciplina religiosa, sem a sombra duma vida interior, ou daquela espiritualidade, caridade e fé que - e tão somente elas - podem salvaguardar os tratados e acordos feitos pelo governo.

E católicos, milhares de católicos de todas as partes do mundo têm a consumada audácia de chorar e lamentar o fato de Deus não ouvir suas preces pela paz. Eles desprezaram não só sua vontade, mas também os ditames comuns da razão e da prudência naturais, deixando seus filhos crescer conforme os padrões de uma civilização de hienas."


The Seven Storey Mountain, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace, New York), 1948
No Brasil: A montanha dos sete patamares, (Editora Vozes, Petrópolis), 2005, p. 51

29 janeiro 2013

Amor negligenciado

"Quando penso agora naquele período de minha infância, a imagem que tenho de meu irmão é esta: parado no meio de um campo, a uns cem metros de distância das árvores onde havíamos construído nossa cabana, estava aquele garoto de cinco anos de idade, olhando perplexo, vestido calças curtas e uma espécie de jaqueta de couro, muito quieto, com os braços caídos ao lado do corpo, olhando na nossa direção, com medo de chegar mais perto por causa das pedradas, tão insultado quanto triste, com os olhos cheios de indignação e mágoa. E, todavia, não se afastava dali. Gritávamos para que ele saísse daí e fosse para casa, atirávamos algumas pedras na sua direção, mas ele não ia embora. Falávamos que fosse brincar em outro lugar, mas ele não se movia.

E ali ficava, sem soluçar, sem chorar, mas zangado e infeliz, ofendido e tremendamente triste. Olhava, porém, fascinado para aquilo que estávamos fazendo, isto é, pregando sarrafos por cima de nossa nova cabana. Seu imenso desejo de estar conosco e fazer o que fazíamos não o deixava ir-se embora. A lei escrita em sua natureza dizia que devia ficar com seu irmão mais velho e fazer o que ele fazia: não conseguia entender por que essa lei do amor estava sendo tão selvagem e injustamente violada em seu caso.

Muitas vezes acontecia a mesma coisa. E, em certo sentido, esta situação terrível é o padrão e protótipo de todo o pecado: a vontade deliberada e formal de rejeitar o amor desinteressado por nós pela razão puramente arbitrária de simplesmente não o querermos.

Queremos separar-nos desse amor. Nós o rejeitamos total e absolutamente e não queremos reconhecê-lo, simplesmente por que não nos agrada ser amados. Talvez o motivo mais profundo é que o fato de sermos amados desinteressadamente nos lembre de que todos precisamos do amor dos outros para levar avante nossa vida. Recusamos o amor e rejeitamos o convívio, à medida que isto parece à nossa perversa imaginação implicar uma forma obscura de humilhação."

The Seven Storey Mountain, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace, New York), 1948
No Brasil: A montanha dos sete patamares, (Editora Vozes, Petrópolis), 2005, p. 27

23 janeiro 2013

Uma espécie de rei

"Eu herdei de meu pai seu modo de ver as coisas e um pouco de sua integridade, de minha mãe herdei o descontentamento pelas enrascadas em que o mundo se meteu e um pouco de sua versatilidade. Recebi de ambos a capacidade de trabalhar, visão, prazer e expressão que poderiam ter feito de mim uma espécie de rei, se os padrões de que vivia o mundo fossem legítimos. Não que tivéssemos muito dinheiro, pois qualquer tolo sabe que não há necessidade de dinheiro para conseguir prazer na vida.

Se aquilo que as pessoas supõem como certo fosse verdadeiro - para ser feliz, o que você precisa é agarrar tudo, ver tudo e experimentar tudo e, depois, falar disso, eu teria sido uma pessoa muito feliz, um milionário espiritual desde o berço até agora.

Se a felicidade fosse apenas questão de dons naturais, jamais teria ingressado num mosteiro trapista quando cheguei à maioridade."

The Seven Storey Mountain, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace, New York), 1948
No Brasil: A montanha dos sete patamares, (Editora Vozes, Petrópolis), 2005, p. 10

15 janeiro 2013

Consciência nova em folha

"Mas oh!, quantas possibilidades estavam diante de mim e de meu irmão naquele tempo! Uma consciência nova em folha estava surgindo como função real e operativa da alma. Minhas opções eram tão somente agir com responsabilidade. Minha consciência estava limpa e informe o bastante para receber todo tipo de padrões e trabalhar com o mais perfeito deles, para trabalhar com a própria graça e com os valores do próprio Deus, se tivesse tido a chance para isso."

The Seven Storey Mountain, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace, New York), 1948
No Brasil: A montanha dos sete patamares, (Editora Vozes, Petrópolis), 2005, p. 17