10 novembro 2014

Experimentar a pobreza alheia

"A misericórdia de Deus está à nossa disposição, quando a quisermos; basta ser misericordioso com o outro. Pois é a bondade de Deus que age através de nós, quando Ele nos leva a tratar o próximo como Deus nos trata. Sua misericórdia santifica a nossa pobreza, quando sentimos compaixão pela dos outros, como se fosse a nossa. E isso é um reflexo criado da divina compaixão nas nossas almas. Assim, ela destrói os nossos pecados, no mesmo ato em que esquecemos e perdoamos os pecados alheios.

Tal compaixão não se aprende sem sofrimento. É impossível encontrá-la numa vida complacente, em que platonicamente esquecemos os erros alheios, sem nenhum senso do nosso próprio entrosamento no mundo do pecado. Se queremos conhecer a Deus, aprendamos a entender as fraquezas, pecados e imperfeições dos outros, como se nossas fossem. Temos de experimentar a sua pobreza, como Cristo fez a experiência da nossa."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.176

03 novembro 2014

Bem-aventurados os que choram

"Pode ser verdade? Pode haver maior infortúnio do que experimentar a nossa insuficiência, miséria e desesperança, e conhecer que não somos, absolutamente, dignos de nada? É, porém, uma bênção ver-se reduzido a esses extremos, quando neles podemos encontrar a Deus. Até chegarmos ao fundo do abismo, ainda há para nós algo a escolher entre tudo e nada. Ainda há qualquer coisa no meio. Podemos ainda fugir à decisão. Quando somos reduzidos aos extremos não existe mais evasão. A escolha torna-se terrível. Ela é feita em meio às trevas, mas com uma intuição que é insuportável, tal a sua clareza angélica: é quando nós, que fomos destruídos e parecemos estar no inferno, miraculosamente escolhemos a Deus!"

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.173-174

27 outubro 2014

Misericórdia

“Quando estou fraco, é então que estou forte” (II Cor.12,10).

É a nossa fraqueza que nos abre os Céus, porque nos atrai a misericórdia de Deus e Lhe conquistou o amor. A nossa infelicidade é a raiz de toda a nossa alegria. Até o pecado representou um involuntário papel na salvação dos pecadores, pois a infinita bondade de Deus não se pode impedir de tirar o maior bem do maior mal. O pecado foi destruído por meio do pecado daqueles que pensavam poder destruir Cristo. O pecado não pode nunca fazer nada de bom. Não pode nem mesmo destruir-se a si mesmo, o que seria de fato um grande bem. Mas o amor de Cristo por nós, e a misericórdia de Deus, destruiu o pecado, tomando sobre si todas as nossas faltas e pagando o preço devido por elas. Assim a Igreja canta que Cristo morreu na árvore da Cruz para que a vida pudesse ressurgir do mesmo tronco donde primeiro nascera a morte.

O conceito cristão de misericórdia é, portanto, a chave da transformação de todo um universo em que o pecado ainda parece reinar. Porque o cristão não escapa do mal, nem é dispensado de sofrer, nem, ainda, liberto da influência e dos efeitos do pecado. Também não é impecável. Ele pode, infortunadamente, pecar. Não é completamente libertado do mal. A sua vocação, todavia, é de livrar do mal o mundo inteiro, e de transformá-lo em Deus: pela oração, penitência, caridade, e sobretudo, pela misericórdia. Deus, que é todo santo, não contente de fazer misericórdia conosco, pôs também a sua misericórdia em mãos dos pecadores possíveis que somos, para que pudéssemos escolher entre o bem e o mal, vencer o mal com o bem, e obter para nós mesmos a misericórdia que tivermos com os outros."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.172-173

20 outubro 2014

Sinceridade: uma última palavra

A nossa sinceridade em face de nós mesmos, de Deus e dos outros homens, é proporcional à nossa capacidade de amor sincero. E a sinceridade do nosso amor depende, em larga escala, da nossa capacidade para crermo-nos amados (...). Para amar sinceramente, e com simplicidade, devemos primeiro vencer o medo de não ser amados. E isso não pode ser à custa de alguma ilusão que nos force a crer que somos amados quando na verdade não somos. Devemos despir as ilusões que nós fazemos a nosso respeito, reconhecer francamente a nossa imperfeição, e descer às profundezas do nosso ser até à realidade básica que existe em cada um, aprendendo a ver que, afinal, e, a despeito de tudo, somos amáveis!

Todo o problema da sinceridade é, pois, fundamentalmente, uma questão de amor e de medo. O homem egoísta e mesquinho, que ama pouco, e teme muito não ser amado, não pode ser profundamente sincero, embora aparente, às vezes, um caráter superficialmente franco. Em seu íntimo, ele será sempre envolto em falsidade. Mesmo nas suas melhores e mais sérias intenções, não deixará de enganar a si mesmo. Nada do que ele diz ou sente sobre o amor, humano ou divino, pode merecer crédito, até que o seu amor seja ao menos purificado dos temores mais baixos e mais irrazoáveis.

A sinceridade é, talvez, a mais vitalmente importante qualidade da verdadeira oração. Ela é a única prova certa de nossa fé, da nossa esperança e do nosso amor de Deus (...). O mais importante na oração é que nos apresentemos como somos, diante de Deus, tal qual Ele é. Isso é impossível sem um generoso esforço de recolhimento e de conhecimento de si mesmo. Mas se somos sinceros, a nossa oração não será jamais infrutífera. A própria sinceridade nos põe em instantâneo contato com o Deus de toda a verdade.

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág. 168-171

14 outubro 2014

Sinceridade: Verdade e Amor

"No fim das contas, o problema da sinceridade é um problema de amor. Sincero não é tanto o homem que vê a verdade e a manifesta tal qual a vê, mas o que lhe tem um puro amor. Mas, a verdade é mais do que uma abstração. Ela vive, e incorpora-se aos homens e às coisas, que são reais. Assim, não se deve procurar o segredo da sinceridade num amor filosófico da verdade abstrata, mas num amor por pessoa e coisas concretas, um amor de Deus, aprendido na realidade ambiente.

É difícil exprimir em palavras a importância dessa noção. O problema fundamental do nosso tempo não é falta de conhecimento, mas falta de amor. Se os homens simplesmente se amassem entre si, não teriam dificuldade em confiar-se reciprocamente, e em partilhar uns com os outros a verdade. Se todos tivessem caridade, achariam a Deus facilmente. "Pois a caridade é de Deus e quem quer que ama nasce de Deus e conhece a Deus" (I Jo, 4,7).

Se os homens não amam, é porque aprenderam, na sua mais remota infância, que não eram amados. A duplicidade e o cinismo do nosso tempo pertence a uma geração que é bem consciente, desde o berço, de não ser desejada por seus pais."

Homem Algum é uma Ilha, Thomas Merton (Verus Editora, Campinas), 2003. p.171