15 dezembro 2014

Temor

"É só na presença de Deus que nos revelamos em toda a verdade. Porque é então que, vendo a Deus em sua própria luz, vinda da obscuridade da fé, também vemos, à mesma claridade, como somos diferentes do que pensamos ser em nossa ambição e vaidade.

Aqui o recolhimento colore-se de compunção e daquilo que os Padres chamam de “santo temor”. Temor é o conhecimento de nós mesmos em presença da santidade de Deus. É o conhecimento que temos de nós diante do seu amor, ao ver como estamos longe do que esse amor queria. Ele sabe quem é Deus e quem somos nós!

Mas um  temor “santo” não pode temer o amor. O que ele teme é a discrepância entre si e o amor, e corre a esconder-se no abismo de luz, que é o amor de Deus e a sua perfeição.

Esse temor é absolutamente necessário para que se preserve o nosso recolhimento  de degradar-se numa falsa doçura e presunção, que se supõe segura da graça, e cessa de temer a ilusão, comprazendo-se com o pensamento da sua virtude e alto grau de oração. Tal complacência cai imperceptivelmente, como uma cortina impenetrável, entre nós e Deus, que se vai, deixando conosco uma terrível ilusão."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.186

10 dezembro 2014

Eu já vivi

“31 de janeiro de 1960. Nunca pensei que uma coisa dessas, o aniversário dos meus 45 anos, fosse acontecer. No entanto, aqui está ele. Por que será que eu sempre andei meio convencido de que iria morrer jovem? Talvez por uma espécie de superstição — o medo de admitir uma esperança de vida que, se admitida, poderia ter de ser desfeita. Mas agora 'eu já vivi' uma boa parte da vida, e, quer o fato seja importante quer não, nada pode alterá-lo. É certo, infalível — embora isso também seja apenas uma espécie de sonho. Se eu não chegar aos 65, importa menos. Posso relaxar. A vida é uma dádiva com a qual estou satisfeito: não maldigo o dia em que nasci. Pelo contrário, se eu não tivesse nascido, nunca teria tido amigos para eu gostar deles e eles gostarem de mim, nunca cometeria os erros com os quais se aprende, nunca veria novos países. Já o que eu possa ter sofrido é de somenos importância e, com efeito, parte do grande bem que a vida tem sido e, espero, há de continuar a ser. Afinal, subitamente me dou conta de que uma pessoa de 45 anos ainda é jovem”.

Merton na Intimidade (Editora Fissus, Rio de Janeiro), 2001

01 dezembro 2014

Nossas livres escolhas


Enquanto vivemos esta vida, ao mesmo tempo somos e não somos. Vivemos em transformação contínua, e todavia é sempre a mesma pessoa que muda. Até as mudanças lhe exprimem a personalidade, a desenvolvem e confirmam no que ela é.

Um homem é um ser livre que vive sempre a transformar-se. Essa mudança não é jamais indiferente. Mudamos sempre para melhor ou para pior. O nosso desenvolvimento é medido por nossas livres escolhas, e acabamos à imagem dos desejos que temos.

Se eles tendem àquilo que somos destinados a possuir, a realizar e a vir a ser, então nós nos tornaremos aquilo que devemos ser.

Mas, se eles tendem para coisas que não têm sentido para o nosso crescimento espiritual, perdendo-se em sonhos, em paixões ou em mentiras, seremos falsos a nos mesmos e, no fim, a nossa vida proclamará que mentimos a Deus, aos outros e a nós mesmos. Seremos estranhos tanto a nós próprios como a Deus.

No inferno não há recolhimento. Os réprobos são exilados não só de Deus e dos outros, mas de si mesmos.

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.181-182

24 novembro 2014

Aprender a perdoar

"Querem conhecer a Deus? Aprendam a compreender as fraquezas e imperfeições dos irmãos. Mas, como se pode conhecer a fraqueza alheia, se não se reconhece a própria? Como se pode ver o sentido das próprias limitações se não se recebeu de Deus a misericórdia que nos dá o conhecimento Dele e de nós mesmos? Não basta perdoar: é preciso perdoar com humildade e compaixão. Perdoar sem humildade é um escárnio, que nos supõe melhores do que os outros. Jesus desceu aos abismos da nossa degradação a fim de perdoar-nos, após descer, em certo sentido, mais baixo do que nós todos. Não nos compete perdoar a outros do alto de tronos sublimes, como se fôssemos deuses a olha-los de cima dos céus. Nosso dever é perdoá-los nas chamas do seu próprio inferno, pois Cristo, através do nosso perdão, desce mais uma vez para apagar a chama vingadora. Mas Ele não o pode fazer se não perdoarmos com a compaixão do Cristo. Ele não pode amar sem sentimento e sem coração. Seu amor é humano e divino ao mesmo tempo, e a nossa caridade será uma caricatura do seu amor se ela pretende ser apenas divina, e não consente em ser também humana."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.177-178

17 novembro 2014

A fonte da alegria

"Cada pecado é uma violação do amor de Deus, e a justiça divina torna-lhe impossível uma reparação perfeita a não ser pelo amor. Ora, o amor é o maior dom de Deus aos homens. A caridade é a nossa mais alta perfeição e a fonte de toda a nossa alegria. Ela é o livre dom da misericórdia. Cumulando-nos da divina caridade e chamando-nos a amar a Deus como Ele nos amou primeiro, e a amar os outros como Deus a nós, a sua misericórdia permite-nos oferecer plena satisfação à justiça. Esta pode, assim, melhor satisfazer-se com os efeitos da própria misericórdia."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.177