12 janeiro 2015

Busca e encontro

"Impossível ir à busca de Deus, se Ele não vem primeiro à procura de nós. Podemos começar a procurá-Lo na aflição, sentindo Dele apenas a ausência. Mas o fato irmos ao seu encalço prova que já o encontramos."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.189-190

05 janeiro 2015

Recolhimento e solidão

"Recolhimento é o mesmo que a solidão interior. É nela que descobrimos a finita solidão da alma, e a infinita solidão de Deus, vivo em nós. Enquanto esses vastos horizontes não se abrirem ao centro da nossa vida, é difícil ver as coisas em sua justa perspectiva. Os nossos juízos não estão em proporção com as coisas na sua realidade. Mas o homem espiritual, diz São Paulo, julga de tudo. É que ele se separa das coisas pelo desprendimento, a pobreza, a humildade, enfim, pelo seu aniquilamento. Em consequência, vê tudo em Deus somente. E ver assim é julgar como Deus julga.
 
O recolhimento, pois, nos leva à íntima solidão, que é mais do que o desejo ou o fato de estar só. Não é ao perceber quanto somos nós, que nos tornamos solitários, mas ao sentir um pouco da solitude de Deus. Ela separa-nos de tudo que nos cerca, e, contudo, é ela que em verdade nos faz mais irmãos de todas as coisas.
 
É impossível viver para o próximo sem entrar nessa solidão. Se tentamos viver para os outros sem primeiro viver para Deus, arriscamo-nos a mergulhar com eles no abismo."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.187

29 dezembro 2014

Não aprisione o espírito


"Quanto mais intenso, forte e prolongado o nosso recolhimento, tanto maior o perigo de cair nessa ilusão. (veja o artigo anterior). Com o tempo vai-se tornando fácil recolher-nos sem, de fato, entrarmos em contato com Deus. Esse recolhimento não passa de um artifício psicológico. É um ato de introspecção, que se aprende sem esforço. Ele abre para um sombrio, confortável e silencioso quarto interior, onde nada acontece, nada perturba, porque se conseguiu achar a chave que desliga, em sua origem, toda a atividade intelectual. Isso não é oração, e embora possa ser coisa tranquila e benéfica por um pouco de tempo, causará o maior dano, se nos apegamos e o levamos longe demais.

Recolhimento sem fé confina o espírito numa prisão privada de luz e de ar. Um ascetismo interior não deve terminar por fechar-nos em tal cárcere. Só faria, com isto, anular os fins da graça divina. Não é pondo limites à atividade da alma que a fé nos estabelece em recolhimento, mas na remoção de todas as limitações da nossa inteligência e vontade, livrando a mente da dúvida e a vontade da hesitação, de modo que o espírito, livrado por Deus, mergulha nas profundezas da sua invisível liberdade."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.186-187

23 dezembro 2014

Natal: alegria infinita


Sieger Köder, São Francisco celebra o Natal no povoado de Greccio
"Estou certo de que, onde o Senhor vê o pontinho de pobreza e extenuação e desamparo a que o monge é reduzido, o solitário e o homem de lágrimas, Ele então deve descer e vir e nascer, lá nessa angústia, e torná-la um ponto constante de alegria infinita, uma semente de paz no mundo."

Merton na Intimidade (Editora Fissus, Rio de Janeiro), 2001, pág. 228

15 dezembro 2014

Temor

"É só na presença de Deus que nos revelamos em toda a verdade. Porque é então que, vendo a Deus em sua própria luz, vinda da obscuridade da fé, também vemos, à mesma claridade, como somos diferentes do que pensamos ser em nossa ambição e vaidade.

Aqui o recolhimento colore-se de compunção e daquilo que os Padres chamam de “santo temor”. Temor é o conhecimento de nós mesmos em presença da santidade de Deus. É o conhecimento que temos de nós diante do seu amor, ao ver como estamos longe do que esse amor queria. Ele sabe quem é Deus e quem somos nós!

Mas um  temor “santo” não pode temer o amor. O que ele teme é a discrepância entre si e o amor, e corre a esconder-se no abismo de luz, que é o amor de Deus e a sua perfeição.

Esse temor é absolutamente necessário para que se preserve o nosso recolhimento  de degradar-se numa falsa doçura e presunção, que se supõe segura da graça, e cessa de temer a ilusão, comprazendo-se com o pensamento da sua virtude e alto grau de oração. Tal complacência cai imperceptivelmente, como uma cortina impenetrável, entre nós e Deus, que se vai, deixando conosco uma terrível ilusão."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.186