26 janeiro 2015

O Espírito sopra onde quer


"Deus está em toda parte e nunca nos deixa. No entanto, Ele parece, umas vezes, presente; outras, ausente. Se não O conhecemos bem, não percebemos que Ele nos pode ser mais presente, em sua ausência, do que em sua presença.

Deus tem duas espécies de ausência. Uma é a que nos condena; a outra a que nos santifica.

Na ausência que condena, Deus não nos conhece, visto que pusemos um outro deus em seu lugar e recusamos ser conhecidos por Ele.

Na ausência que santifica, Ele está presente, e essa presença é afirmada e adorada pela ausência do resto. Ele está mais perto de nós do que nós mesmos, embora não o vejamos. Quem quer que O tente agarrar e reter, prende-Lo-á. Ele é como o vento que sopra onde lhe apraz. Quem O ama, deve amá-Lo assim vindo não se sabe donde, e indo não se sabe para onde."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.194

19 janeiro 2015

Realidade

"Não podemos encontrar o Onipotente, sem sair inteiramente da nossa fraqueza. Mas temos primeiro de descobrir o nosso nada, antes de passar além: e isto é impossível, enquanto acreditamos na ilusão da nossa própria força."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.192

12 janeiro 2015

Busca e encontro

"Impossível ir à busca de Deus, se Ele não vem primeiro à procura de nós. Podemos começar a procurá-Lo na aflição, sentindo Dele apenas a ausência. Mas o fato irmos ao seu encalço prova que já o encontramos."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.189-190

05 janeiro 2015

Recolhimento e solidão

"Recolhimento é o mesmo que a solidão interior. É nela que descobrimos a finita solidão da alma, e a infinita solidão de Deus, vivo em nós. Enquanto esses vastos horizontes não se abrirem ao centro da nossa vida, é difícil ver as coisas em sua justa perspectiva. Os nossos juízos não estão em proporção com as coisas na sua realidade. Mas o homem espiritual, diz São Paulo, julga de tudo. É que ele se separa das coisas pelo desprendimento, a pobreza, a humildade, enfim, pelo seu aniquilamento. Em consequência, vê tudo em Deus somente. E ver assim é julgar como Deus julga.
 
O recolhimento, pois, nos leva à íntima solidão, que é mais do que o desejo ou o fato de estar só. Não é ao perceber quanto somos nós, que nos tornamos solitários, mas ao sentir um pouco da solitude de Deus. Ela separa-nos de tudo que nos cerca, e, contudo, é ela que em verdade nos faz mais irmãos de todas as coisas.
 
É impossível viver para o próximo sem entrar nessa solidão. Se tentamos viver para os outros sem primeiro viver para Deus, arriscamo-nos a mergulhar com eles no abismo."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.187

29 dezembro 2014

Não aprisione o espírito


"Quanto mais intenso, forte e prolongado o nosso recolhimento, tanto maior o perigo de cair nessa ilusão. (veja o artigo anterior). Com o tempo vai-se tornando fácil recolher-nos sem, de fato, entrarmos em contato com Deus. Esse recolhimento não passa de um artifício psicológico. É um ato de introspecção, que se aprende sem esforço. Ele abre para um sombrio, confortável e silencioso quarto interior, onde nada acontece, nada perturba, porque se conseguiu achar a chave que desliga, em sua origem, toda a atividade intelectual. Isso não é oração, e embora possa ser coisa tranquila e benéfica por um pouco de tempo, causará o maior dano, se nos apegamos e o levamos longe demais.

Recolhimento sem fé confina o espírito numa prisão privada de luz e de ar. Um ascetismo interior não deve terminar por fechar-nos em tal cárcere. Só faria, com isto, anular os fins da graça divina. Não é pondo limites à atividade da alma que a fé nos estabelece em recolhimento, mas na remoção de todas as limitações da nossa inteligência e vontade, livrando a mente da dúvida e a vontade da hesitação, de modo que o espírito, livrado por Deus, mergulha nas profundezas da sua invisível liberdade."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.186-187