18 abril 2016

Valores universais


"Gandhi tinha o maior respeito pelo cristianismo, por Cristo e pelo Evangelho. Seguindo seu caminho da satyagraha* acreditava seguir a Lei de Cristo. Seria difícil provar estar ele inteiramente enganado nessa crença ou que fosse ele, em qualquer grau, insincero.

Uma das grandes lições da vida de Ghandi é a seguinte: Ele, um indiano, descobriu, através das tradições espirituais do Ocidente, sua herança indiana e, com ela, seu reto pensar. Ora, na fidelidade à sua própria herança e ao seu sadio equilíbrio, pôde apontar aos homens do Ocidente e de todo o mundo um meio de recuperar o reto pensar dentro de sua própria tradição, manifestando, assim, o fato de que existem certos valores essenciais e indiscutíveis – religiosos, éticos, ascéticos, espirituais e filosóficos – sempre necessários ao homem e que, no passado, conseguiu ele adquirir.

Valores sem os quais não pode viver, valores atualmente em grande escala por ele perdidos, de modo que, sem preparação para enfrentar a vida de maneira plenamente humana, corre agora o risco de destruir-se completamente. Esses valores podem ser denominados “religião natural” ou “lei natural”, seja como for, o cristianismo admite sua existência, pelo menos como preâmbulos à fé e à graça, se não, por vezes, muito mais que isso (Rm 2, 14-15; At 17, 22-31).

Esses valores são universais e é difícil ver-se como possa haver alguma “catolicidade” (cath-holos significa “tudo abranger”) que, mesmo implicitamente, os exclua. Uma das marcas da catolicidade é precisamente a de que valores em toda parte naturais ao homem se realizem, no mais elevado nível, na Lei do Espírito e na caridade cristã. Uma 'caridade' que exclui esses valores não pode reivindicar para si o título de amor cristão."

*Uma palavra fabricada por Gandhi. Sua raiz significa “apegar-se à verdade” e, por extensão, resistência pela não-violência.


Gandhi e a não violência, Thomas Merton (Editora Vozes), 1967, pág. 16 e 17

11 abril 2016

Amor, solidão e verdade


"Como podemos redescobrir essa verdade?
Só quando não mais precisarmos buscá-la – pois, enquanto a buscamos, deixamos implícito que a perdemos. Mas, na realidade, reconhecer-nos enraizados na nossa verdadeira base, o amor, é reconhecer que não podemos ser sem ele.
Esse reconhecimento é impossível sem uma solidão pessoal básica."

Amor e vida, Thomas Merton (Martins Fontes, 2004), pág. 19

04 abril 2016

A experiência mística da contemplação

“A verdadeira experiência mística de Deus e a suprema renúncia a tudo fora dele coincidem. São dois aspectos da mesma coisa. (...) A união da luz simples de Deus com a luz simples do espírito do homem, no amor, é contemplação.”

Novas sementes de contemplação, Thomas Merton (Editora Fisus), 1999, pág. 263 e 284

27 março 2016

Domingo de Páscoa | Vencendo a morte


28 de março de 1948. Domingo de Páscoa.


"Todas as antífonas de alleluia da Páscoa voltam-me à cabeça como ricas associações dos dias mais felizes da minha vida – as sete temporadas pascoais que já passei no mosteiro, sendo a sétima a que está começando agora: a sabática.
Todas as macieiras floriram na Sexta-feira Santa. Esfriou e choveu, mas hoje está muito claro, com o céu bem limpo. O salgueiro está todo verde. Tudo está em botão.
E, no meu coração, a paz mais profunda, a claridade de Cristo, lúcida e serena e sempre presente como a eternidade. Nessas grandes festas somos levados ao topo de um platô na vida espiritual para termos uma nova visão de tudo. Principalmente na Páscoa. A Páscoa é como o que há de ser, quando, entrando na eternidade, brusca, tranquila e claramente você reconhece seus erros, todos eles, bem como tudo o que fez bem: cada coisa se encaixa em seu lugar.”

Merton na Intimidade – Sua vida em seus diários
 (Editora Fisus, 2001) pág. 61

26 março 2016

Sábado Santo | Atmosfera de oração e de silêncio


“A intenção simples é medicina divina, é bálsamo que acalma as potências da nossa alma feridas pelo excesso de expressão subjetiva. Ela cura os nossos atos na sua secreta fraqueza, e atrai a nossa força às alturas ocultas do nosso ser, e banha o nosso espírito na infinita misericórdia de Deus. Ela nos fere a alma para medicá-la em Cristo, pois a intensão simples revela a presença e a ação de Cristo em nossos corações. Ela faz de nós perfeitos instrumentos de Cristo e transforma-nos em sua semelhança, enchendo a nossa vida inteira da sua brandura e da sua força, da sua pureza, da sua oração e do seu silêncio. Tudo que se oferece a Deus com reta intenção é aceito por Ele. Tudo que se oferece a Deus com intenção simples, Ele aceita não só por causa da nossa boa vontade, mas porque Lhe é agradável em si mesmo.”
Homem Algum É uma IlhaThomas Merton 
(Editora Agir, 1968) pág. 78 e 79