16 maio 2016

Recebei o Espírito Santo...


“Assim como uma lente concentra os raios do sol num pequenino foco de calor que pode atear fogo a uma folha seca ou a um pedaço de papel, assim o mistério de Cristo no Evangelho concentra os raios da luz de Deus e seu fogo num ponto que inflama o espírito do homem.”

Novas sementes de contemplação, Thomas Merton, Fisus,1999, p. 151

09 maio 2016

Credes agora?

“O homem não pode viver sem alguma forma de fé. A fé, no sentido mais largo, é a aceitação duma verdade sob a evidência de um outro. A essência de toda fé é a submissão do juízo ao critério de um outro, a cuja palavra aceitamos verdades não evidentes à nossa mente. Fé natural ou humana é a aceitação de verdades baseadas na autoridade de outros homens. Fé Sobrenatural é a crença em verdades reveladas por Deus, segundo o testemunho de Deus e por causa da autoridade de Deus que no-las revela.”

Ascensão para a verdade, Thomas Merton (Ed. Itatiaia), 1ª Edição 1999, pág. 30

02 maio 2016

Diálogo

“Teófilo, de memória sagrada, bispo de Alexandria, viajou até Cétia e os irmãos disseram ao abade Pambo: ‘Diga uma ou duas palavras ao bispo, para que sua alma seja edificada.’ O ancião respondeu: ‘Se ele não for edificado pelo meu silêncio, não há esperança de que o seja pelas minhas palavras.’”

A sabedoria do deserto, Thomas Merton 
(Martins Fontes, 2004), pág. 82

26 abril 2016

Ide pelo mundo...


pequeno Thomas por volta dos 5 anos de idade
“Lembro-me de um dia em que tive grande vontade de ir à igreja, mas não fomos. Era domingo. Talvez o domingo de Páscoa, provavelmente em 1920. Do outro lado dos campos, além da casa vermelha do sítio vizinho, eu conseguia ver a torre da igreja de São Jorge sobressaindo entre as árvores. O som dos sinos da igreja chegava a nós através dos campos ensolarados. Eu brincava diante da casa e parei para escutar. De repente todos os passarinhos começaram a cantar nas árvores em cima da minha cabeça. O som do canto dos passarinhos e dos sinos tocando encheu meu coração de alegria. Gritei ao meu pai:
— Pai, todos os passarinhos estão na igreja deles.

E depois eu disse: — Por que não vamos à igreja?

Meu pai levantou a cabeça e disse: — Nós iremos.

— Agora? — perguntei.

— Não, é muito tarde. Mas iremos num outro domingo.”

A montanha dos sete patamares, (Editora Vozes, Petrópolis), 2005, pág. 15

18 abril 2016

Valores universais


"Gandhi tinha o maior respeito pelo cristianismo, por Cristo e pelo Evangelho. Seguindo seu caminho da satyagraha* acreditava seguir a Lei de Cristo. Seria difícil provar estar ele inteiramente enganado nessa crença ou que fosse ele, em qualquer grau, insincero.

Uma das grandes lições da vida de Ghandi é a seguinte: Ele, um indiano, descobriu, através das tradições espirituais do Ocidente, sua herança indiana e, com ela, seu reto pensar. Ora, na fidelidade à sua própria herança e ao seu sadio equilíbrio, pôde apontar aos homens do Ocidente e de todo o mundo um meio de recuperar o reto pensar dentro de sua própria tradição, manifestando, assim, o fato de que existem certos valores essenciais e indiscutíveis – religiosos, éticos, ascéticos, espirituais e filosóficos – sempre necessários ao homem e que, no passado, conseguiu ele adquirir.

Valores sem os quais não pode viver, valores atualmente em grande escala por ele perdidos, de modo que, sem preparação para enfrentar a vida de maneira plenamente humana, corre agora o risco de destruir-se completamente. Esses valores podem ser denominados “religião natural” ou “lei natural”, seja como for, o cristianismo admite sua existência, pelo menos como preâmbulos à fé e à graça, se não, por vezes, muito mais que isso (Rm 2, 14-15; At 17, 22-31).

Esses valores são universais e é difícil ver-se como possa haver alguma “catolicidade” (cath-holos significa “tudo abranger”) que, mesmo implicitamente, os exclua. Uma das marcas da catolicidade é precisamente a de que valores em toda parte naturais ao homem se realizem, no mais elevado nível, na Lei do Espírito e na caridade cristã. Uma 'caridade' que exclui esses valores não pode reivindicar para si o título de amor cristão."

*Uma palavra fabricada por Gandhi. Sua raiz significa “apegar-se à verdade” e, por extensão, resistência pela não-violência.


Gandhi e a não violência, Thomas Merton (Editora Vozes), 1967, pág. 16 e 17