10
de agosto de 1965 – São Lourenço
A
vida solitária, agora que eu me confronto com ela, é assustadora, assombrosa, e
constato não dispor de resistência em mim para enfrentá-la. Profunda impressão
de minha própria pobreza e, acima de tudo, consciência dos erros que permiti em
mim mesmo, junto com esse desejo positivo. Tudo isso é bom. Alegra-me ser
abalado pela graça e acordar a tempo de ver a grande seriedade disso. Com isso
eu andei apenas brincando, e a vida solitária não admite meras brincadeiras. Ao
contrário de tudo que é dito a seu respeito, não vejo como a vida realmente
solitária possa tolerar ilusão e autoengano. Parece-me que a solidão arranca
todas as máscaras e todos os disfarces. Não tolera mentiras. Tudo, exceto a
afirmação direta e categórica, é marcado e julgado pelo silêncio da floresta. ‘Que
sua fala seja sim! Sim!’.
Editado por Patrick Hart e Jonathan Montaldo – Traduzido por
Leonardo Fróes (Ed. Fisus), 2001, pág. 290