"O começo do amor é a verdade, e antes de nos conceder seu amor, Deus precisa purificar nossa alma das mentiras que estão dentro dela. E a maneira mais eficaz de nos desprendermos de nós mesmos é fazer com que nos detestemos pelo que nos tornamos pelo pecado, para que possamos amá-lo refletido em nossas almas que ele refez por seu amor.
Este é o sentido da vida contemplativa e o sentido de todas as regras, observâncias, jejuns, obediências, penitências, humilhações e trabalho aparentemente sem significado que constituem a rotina da existência num mosteiro contemplativo. Tudo isso serve para nos lembrar o que somos e quem Deus é... de modo a ficarmos nauseados de nós mesmos e nos voltarmos para ele. E, ao final, encontramos Deus em nós, em nossas naturezas purificadas que se tornaram o espelho de sua grandiosa divindade e de seu amor eterno..."
(Vozes, 2005) pág. 337
14 de maio de 1947 – Vigília da Ascensão
(...) Amanhã é o dia da Ascensão, minha festa favorita. Em qualquer época do ano, surpreendo-me a ouvir as antífonas da Ascensão cantando em meus ouvidos, enchendo-me de luz e paz. Vado parare vobis locum¹. É a festa do silêncio e da solidão interior, quando subimos ao céu com Jesus: pois Ele nos transporta ao céu após haver vivido um pouco entre nós, na terra. Esta é a graça do dia da Ascensão: sermos levados para o céu de nossas próprias almas, o apex mentis, o ponto de imediato contato com Deus. Descansar nesse tranquilo cume, nas trevas que cercam Deus. Viver ali, através de todas as provações e de toda agitação, com o Tranquillus Deus tranquillans omnia². Que Deus esteja comigo neste dia e para sempre.
1. “Vou, para preparar-vos um lugar”.
2. “O Deus tranquilo que faz tranquilas todas as coisas”. (São Bernardo)
(Mérito, 1954) pág. 60
Jamais encontraremos a solidão interior se não fizermos um esforço consciente para nos libertar dos desejos, preocupações e apegos de uma existência no tempo e no mundo.
“As
obras do Filho decorrem de sua inefável união com o Pai, são sua expressão viva
e vivo testemunho. ‘Se não faço as obras do meu Pai, não me creiais. Mas se as
faço, mesmo que não me quisésseis crer, credes em minhas obras, a fim de que
saibais e conheçais que o Pai está em mim e que estou no Pai’ (Jo 10,37-38).”
(Vozes, 1959) pág. 24
“Se
amamos o Santíssimo Sacramento e se nos comprazemos em passar o nosso tempo na
adoração desse formidável mistério de amor, não podemos deixar de procurar
aprofundar cada vez mais a caridade de Cristo. Não podemos tampouco deixar de
chegar a um conhecimento íntimo e pessoal de Jesus oculto sob os véus
sacramentais. Entretanto, à medida que crescemos no conhecimento e no amor dele,
necessariamente aumentará o nosso conhecimento do amor que Ele tem por nós.
Chegamos a compreender cada vez melhor com que seriedade Jesus quer que tomemos
o seu ‘mandamento novo’ de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou.”
(Vozes, 1963) pág. 162