22 janeiro 2019

Aprender a estar só

Solidão física, silêncio exterior e verdadeiro recolhimento são moralmente necessários a todos os que desejam levar vida contemplativa; porém, como tudo o mais na criação, são apenas meios para um fim e, se não compreendermos o fim, usaremos erradamente os meios.
Não vamos para o deserto no intuito de fugir das pessoas, e sim para aprender a encontrá-las; não nos separamos delas para não termos mais nada a ver com elas, mas para encontrar o melhor modo de lhes fazer bem. Mas este é apenas um fim secundário. O fim primordial que inclui todos os demais é o amor de Deus.


(Vozes, 2017) pág. 178-179.

17 janeiro 2019

Liberdade na obediência

Você por acaso pensa que o caminho para a santidade consiste em se trancar com suas orações, livros e as meditações que agradam e interessam à sua mente, com vários muros para protegê-lo das pessoas que considera estúpidas? Você acha que o caminho para a contemplação passa por recusar os trabalhos e atividades necessários ao bem dos outros, mas que o entendiam e distraem? Você imagina que vai descobrir Deus se fechando em um casulo de prazeres espirituais e estéticos, ao invés de renunciar a todos os seus gostos, desejos, ambições e satisfações por amor a Cristo? Pois ele nem viverá em você se você não conseguir encontrá-lo nos outros.

(Vozes, 2018) pág. 178

31 dezembro 2018

A ação na vida contemplativa

“Seja qual for a necessidade de ação e de serviço da parte do contemplativo, deve ela ceder às exigências mínimas da vida contemplativa. A ação na vida contemplativa existe por causa da contemplação e vice-versa. A abertura do contemplativo é justificada na medida em que o habilita a tornar-se um melhor contemplativo e compartilhar com outros ou fruto de sua contemplação.”

(Vozes, 1975) pág. 142

18 dezembro 2018

Oração pública e privada

“A tradição cristã primitiva e os escritores espirituais da Idade Média não conheciam nenhum conflito entre a oração ‘pública’ e a ‘privada’, ou entre a liturgia e a contemplação. Este é um problema moderno. Ou talvez fosse mais exato dizer que se trata de um pseudoproblema. A liturgia tende, por sua própria natureza, a prolongar-se na oração individual contemplativa. E a oração mental, por sua vez, dispõe-nos ao culto litúrgico e nele busca a plenitude.”

(Ecclesiae, 2018) pág. 71

26 novembro 2018

Para libertar os corações

“Na solidão da vida monástica o monge começa a sentir de maneira obscura que grandes áreas são nele abertas em profundidade no mais íntimo de seu ser; e que o carisma de sua vocação monástica exige uma obediência que se processa num abismo demasiadamente profundo para ser por ele compreendido. Trata-se de uma obediência que impregna as raízes do ser. Essa obediência é muito mais fácil do que qualquer deferência para com a vontade de um homem. Contudo deve ela ser testada por uma regra, uma disciplina e pela submissão às vontades de outros. Sem isso é pura ilusão. Entretanto, para que as regras e as ordens mantenham seu valor na vida monástica, devem ser consideradas em seu correto relacionamento com o escopo definitivo da vida monástica. A obediência monástica não existe para fabricar autômatos (...), existe para libertar os corações e os espíritos a fim de permitir-lhes penetrar na terrível obscuridade da contemplação, que linguagem alguma é capaz de expressar e nenhuma racionalização pode explicar. E deve ser sempre lembrado que essa libertação contemplativa é um dom de Deus.”

(Vozes, 1975) pág. 41