19 fevereiro 2019

A base do prisioneiro

No último dia de janeiro de 1915, sob o signo de Aquários, em tempo duma grande guerra, acolá debaixo das sombras de certa montanha francesa rente à fronteira de Espanha, foi que vim ao mundo. Conquanto livre por natureza e segundo a imagem de Deus, contudo me tornei prisioneiro da minha própria violência e do meu próprio egoísmo, segundo a imagem do mundo em que nasci. Tal mundo era bem a imagem do Inferno, cheio de homens como eu, amando Deus e no entretanto detestando-O, tendo nascido para amá-Lo, mas ao invés disso vivendo no medo e no torvelinho de anseios contraditórios.

(Petra, 2018) pág. 13

12 fevereiro 2019

Medo da solidão

Se temos medo de ficar sozinhos, medo do silêncio, talvez seja em virtude de nossa secreta desesperança de reconciliação íntima. Se não temos a esperança de ficar em paz conosco em nossa própria solidão e em nosso silêncio pessoal, jamais seremos capazes de nos encarar: continuaremos correndo sem parar. E essa fuga do eu é, como indicou o filósofo suíço Max Picard, uma "fuga de Deus". Afinal de contas, é nas profundezas da consciência que Deus fala, e, se recusamos a nos abrir por dentro e a olhar essas profundezas, também recusamos nos confrontar com o Deus invisível presente dentro de nós. Essa recusa é uma admissão parcial de que não queremos que Deus seja Deus, assim como não queremos que nós mesmos sejamos nossos eus verdadeiros.

(Martins Fontes, 2004) pág. 44

29 janeiro 2019

A ação na vida contemplativa


Por pouco que você tenha aprendido sobre Deus na oração, compare os seus atos com esse pouco; oriente-os por esse parâmetro. Tente fazer a sua atividade frutificar no mesmo vazio, no mesmo silêncio e no mesmo desapego que encontrou na contemplação. Em última análise, o segredo de tudo isso é a perfeita entrega à vontade de Deus nas coisas que não podemos controlar, e a perfeita obediência a Ele em tudo que depende da sua própria vontade, de maneira que em tudo - na vida interior e nas atividades exteriores para Deus -, desejemos uma só coisa: a realização de sua vontade.


(Vozes, 2017) pág. 149

22 janeiro 2019

Aprender a estar só

Solidão física, silêncio exterior e verdadeiro recolhimento são moralmente necessários a todos os que desejam levar vida contemplativa; porém, como tudo o mais na criação, são apenas meios para um fim e, se não compreendermos o fim, usaremos erradamente os meios.
Não vamos para o deserto no intuito de fugir das pessoas, e sim para aprender a encontrá-las; não nos separamos delas para não termos mais nada a ver com elas, mas para encontrar o melhor modo de lhes fazer bem. Mas este é apenas um fim secundário. O fim primordial que inclui todos os demais é o amor de Deus.


(Vozes, 2017) pág. 178-179.

17 janeiro 2019

Liberdade na obediência

Você por acaso pensa que o caminho para a santidade consiste em se trancar com suas orações, livros e as meditações que agradam e interessam à sua mente, com vários muros para protegê-lo das pessoas que considera estúpidas? Você acha que o caminho para a contemplação passa por recusar os trabalhos e atividades necessários ao bem dos outros, mas que o entendiam e distraem? Você imagina que vai descobrir Deus se fechando em um casulo de prazeres espirituais e estéticos, ao invés de renunciar a todos os seus gostos, desejos, ambições e satisfações por amor a Cristo? Pois ele nem viverá em você se você não conseguir encontrá-lo nos outros.

(Vozes, 2018) pág. 178