19 fevereiro 2019

Morte

"A morte é o fim da vida".


Essa afirmação parece muito óbvia à primeira vista. Parece dizer tudo o que é essencial sobre a morte. Todavia, declarar meramente que, quando um ser vivo cessa de viver, ele "morre", talvez seja não dizer nada de importante. Ao refletir sobre implicações de "vida" e "morte" e o "fim da vida" tornamos desagradavelmente conscientes de que fazer afirmações puramente casuais sobre essas realidades - uma afirmação que acaba não dizendo "nada de importante" - é um abuso frívolo da fala. Revela uma incapacidade de enfrentar a realidade da vida, da morte e do fim da vida. A morte é tratada com frivolidade porque a própria vida é tratada com frivolidade.

Amor e vida
(Martins Fontes, 2004) pág. 103-104

A base do prisioneiro

No último dia de janeiro de 1915, sob o signo de Aquários, em tempo duma grande guerra, acolá debaixo das sombras de certa montanha francesa rente à fronteira de Espanha, foi que vim ao mundo. Conquanto livre por natureza e segundo a imagem de Deus, contudo me tornei prisioneiro da minha própria violência e do meu próprio egoísmo, segundo a imagem do mundo em que nasci. Tal mundo era bem a imagem do Inferno, cheio de homens como eu, amando Deus e no entretanto detestando-O, tendo nascido para amá-Lo, mas ao invés disso vivendo no medo e no torvelinho de anseios contraditórios.

(Petra, 2018) pág. 13

12 fevereiro 2019

Medo da solidão

Se temos medo de ficar sozinhos, medo do silêncio, talvez seja em virtude de nossa secreta desesperança de reconciliação íntima. Se não temos a esperança de ficar em paz conosco em nossa própria solidão e em nosso silêncio pessoal, jamais seremos capazes de nos encarar: continuaremos correndo sem parar. E essa fuga do eu é, como indicou o filósofo suíço Max Picard, uma "fuga de Deus". Afinal de contas, é nas profundezas da consciência que Deus fala, e, se recusamos a nos abrir por dentro e a olhar essas profundezas, também recusamos nos confrontar com o Deus invisível presente dentro de nós. Essa recusa é uma admissão parcial de que não queremos que Deus seja Deus, assim como não queremos que nós mesmos sejamos nossos eus verdadeiros.

(Martins Fontes, 2004) pág. 44

29 janeiro 2019

A ação na vida contemplativa


Por pouco que você tenha aprendido sobre Deus na oração, compare os seus atos com esse pouco; oriente-os por esse parâmetro. Tente fazer a sua atividade frutificar no mesmo vazio, no mesmo silêncio e no mesmo desapego que encontrou na contemplação. Em última análise, o segredo de tudo isso é a perfeita entrega à vontade de Deus nas coisas que não podemos controlar, e a perfeita obediência a Ele em tudo que depende da sua própria vontade, de maneira que em tudo - na vida interior e nas atividades exteriores para Deus -, desejemos uma só coisa: a realização de sua vontade.


(Vozes, 2017) pág. 149

22 janeiro 2019

Aprender a estar só

Solidão física, silêncio exterior e verdadeiro recolhimento são moralmente necessários a todos os que desejam levar vida contemplativa; porém, como tudo o mais na criação, são apenas meios para um fim e, se não compreendermos o fim, usaremos erradamente os meios.
Não vamos para o deserto no intuito de fugir das pessoas, e sim para aprender a encontrá-las; não nos separamos delas para não termos mais nada a ver com elas, mas para encontrar o melhor modo de lhes fazer bem. Mas este é apenas um fim secundário. O fim primordial que inclui todos os demais é o amor de Deus.


(Vozes, 2017) pág. 178-179.