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08 agosto 2016

Em busca de paz - Parte 1

10 de agosto de 1965 – São Lourenço

A vida solitária, agora que eu me confronto com ela, é assustadora, assombrosa, e constato não dispor de resistência em mim para enfrentá-la. Profunda impressão de minha própria pobreza e, acima de tudo, consciência dos erros que permiti em mim mesmo, junto com esse desejo positivo. Tudo isso é bom. Alegra-me ser abalado pela graça e acordar a tempo de ver a grande seriedade disso. Com isso eu andei apenas brincando, e a vida solitária não admite meras brincadeiras. Ao contrário de tudo que é dito a seu respeito, não vejo como a vida realmente solitária possa tolerar ilusão e autoengano. Parece-me que a solidão arranca todas as máscaras e todos os disfarces. Não tolera mentiras. Tudo, exceto a afirmação direta e categórica, é marcado e julgado pelo silêncio da floresta. ‘Que sua fala seja sim! Sim!’.
Editado por Patrick Hart e Jonathan Montaldo – Traduzido por Leonardo Fróes (Ed. Fisus), 2001, pág. 290

01 agosto 2016

Dai-lhes vós mesmos de comer!

“Pelo menos podia ir ao Harlem e conviver com aquelas pessoas em seus cortiços, viver com aquilo que Deus nos dava como alimento dia após dia, compartilhar minha vida com os doentes, os famintos, os moribundos, com aqueles que nunca tiveram nada e nunca haveriam de ter nada, os párias da terra, uma raça desprezada. Se lá era o meu lugar, Deus me daria a conhecer isso com antecedência e com certeza.”
A Montanha dos Sete Patamares, Thomas Merton (Ed. Vozes), 2ªEd. 2005, pág. 324

25 julho 2016

Servidor

“A Baronesa estava no banco da frente falando com alguém. De repente voltou-se para trás e me perguntou:

-Bem, Tom, quando vai para o Harlem de vez?

A simplicidade da pergunta me pegou de surpresa. Contudo, por mais brusca que tenha sido, talvez estivesse aí minha resposta. Será que era isso que eu estava pedindo em minhas orações?(...)

E assim ficou quase certo de que eu iria para o Harlem, ao menos por um tempo.”
A Montanha dos Sete Patamares, Thomas Merton (Ed. Vozes), 2ªEd. 2005, pág. 324

18 julho 2016

Um sinal realizado por ti

“O signo de Jonas prometeu à geração que não o compreendera foi o ‘signo de Jonas, o profeta’ - isto é, o signo de Sua própria ressurreição. A vida de todo monge, de todo sacerdote, de todo cristão, é marcada pelo signo de Jonas, porque todos vivemos pelo poder da Ressurreição de Cristo. Sinto, porém, que minha vida está especialmente marcada por esse grande signo, que o batismo e a profissão monástica marcaram a fogo nas próprias raízes do meu ser, porque, como o próprio Jonas, me vejo viajando para o meu destino no ventre de um paradoxo.”
O signo de Jonas, Thomas Merton (Ed. Mérito), 1954, pág. 7

04 julho 2016

Caridade: Gratidão e misericórdia

“Amar a Deus é tudo. E amar é bastante. Nada mais tem valor, exceto, e na medida em que seja transformado e elevado pela caridade de Cristo. Mas a coisa mais insignificante, tocada pela caridade, se transforma imediatamente e se torna sublime.
Os dois aspectos mais característicos da caridade divina no coração de um sacerdote são a gratidão e a misericórdia. Gratidão é a maneira como se exprime Sua caridade pelo Pai; misericórdia é a expressão da caridade de Deus, agindo Nele e atingindo por Seu intermédio os seus semelhantes. Gratidão e misericórdia encontram-se e fundem-se perfeitamente na Missa, que nada mais é senão caridade do Pai por nós, a caridade do Filho por nós e pelo Pai, a caridade do Espírito Santo, que é a Caridade que nos une ao Pai e ao Filho.”
O Signo de Jonas, Thomas Merton (Editora Mérito), 1954, pág. 210

27 junho 2016

Fuga Mundi

Santo Antão - Pai dos monges
“A vida contemplativa não é nem pode ser uma simples evasão, uma pura negação, uma fuga do mundo em face dos seus sofrimentos, crises, confusões e erros. (...) Esquecer ou ignorar esse fato não exime o monge da responsabilidade na participação de acontecimentos ante os quais o seu próprio silêncio e o seu ‘não-tomar-conhecimento’ poderão constituir uma forma de cumplicidade. (...) Pode-se dizer, em tais casos, que o monge, em sua liturgia, em seu estudo ou em sua vida contemplativa está de fato participando daquilo de cuja renúncia se congratula.”

Sementes de destruição, Thomas Merton (Vozes, 1996), pág. 7

20 junho 2016

Vocare

“Minha ordenação sacerdotal foi, sinto, aquele grande segredo para que nasci. Dez anos antes de ser ordenado, quando vivia no mundo e parecia ser um dos homens do mundo menos capazes de ser sacerdote, compreendi subitamente que minha ordenação era, de fato, assunto de vida ou de morte, de céu ou de inferno. Desde o momento em que pude ainda me encontrar com a inescrutável vontade de Deus, minha vocação se tornou clara. Foi uma mercê e um segredo tão exclusivamente meus, que a princípio não pretendia falar dele a ninguém.” 
O signo de Jonas, Thomas Merton (Ed. Mérito), 1954, pág. 209

06 junho 2016

Ad Extra

“Somente quando nossa atividade procede da base na qual consentimos nos dissolver ela tem a fertilidade divina de amor e graça. Só então ela atinge realmente os outros em verdadeira comunhão. Muitas vezes nossa necessidade dos outros não é absolutamente amor, mas apenas a necessidade de sermos sustentados em nossas ilusões, assim como sustentamos as dos outros. Mas, quando renunciamos a essas ilusões, então podemos ir ao encontro dos outros com verdadeira compaixão. É na solidão que as ilusões finalmente se dissolvem.”
Amor e vida, Thomas Merton (Martins Fontes), 1ª Ed. 2004, pág. 25

30 maio 2016

Ad Intra

“Heidegger disse que nossa relação com o que está mais próximo de nós é sempre confusa e sem vigor. O que é mais próximo de nós do que a solidão que é a base de nosso ser? Ela está sempre lá. Precisamente por essa razão ela é sempre ignorada, porque quando começamos a pensar nela sentimo-nos pouco à vontade, (...) na verdade, estamos tão próximos de nós mesmos que não há, realmente, ‘relação’ nenhuma com a base de nosso próprio ser. Será que não podemos ser simplesmente nós mesmos sem pensar nisso? Esta é a verdadeira solidão.”
Amor e vida, Thomas Merton (Editora Martins Fontes), 1ª Ed. 2004, pág. 23

23 maio 2016

Despertar

“Somente no silêncio e na solidão, na tranquilidade da adoração, na paz reverente da oração, na adoração na qual o ego-eu inteiro silencia e se rebaixa na presença do Deus invisível para receber Sua única Palavra de Amor; somente nessas ‘atividades’ que são ‘não-ações’, o espírito desperta verdadeiramente do sonho de uma existência variada, confusa e agitada.”

Amor e vida, Thomas Merton (Martins Fontes, 2004), pág. 22

16 maio 2016

Recebei o Espírito Santo...


“Assim como uma lente concentra os raios do sol num pequenino foco de calor que pode atear fogo a uma folha seca ou a um pedaço de papel, assim o mistério de Cristo no Evangelho concentra os raios da luz de Deus e seu fogo num ponto que inflama o espírito do homem.”

Novas sementes de contemplação, Thomas Merton, Fisus,1999, p. 151

02 maio 2016

Diálogo

“Teófilo, de memória sagrada, bispo de Alexandria, viajou até Cétia e os irmãos disseram ao abade Pambo: ‘Diga uma ou duas palavras ao bispo, para que sua alma seja edificada.’ O ancião respondeu: ‘Se ele não for edificado pelo meu silêncio, não há esperança de que o seja pelas minhas palavras.’”

A sabedoria do deserto, Thomas Merton 
(Martins Fontes, 2004), pág. 82

26 abril 2016

Ide pelo mundo...


pequeno Thomas por volta dos 5 anos de idade
“Lembro-me de um dia em que tive grande vontade de ir à igreja, mas não fomos. Era domingo. Talvez o domingo de Páscoa, provavelmente em 1920. Do outro lado dos campos, além da casa vermelha do sítio vizinho, eu conseguia ver a torre da igreja de São Jorge sobressaindo entre as árvores. O som dos sinos da igreja chegava a nós através dos campos ensolarados. Eu brincava diante da casa e parei para escutar. De repente todos os passarinhos começaram a cantar nas árvores em cima da minha cabeça. O som do canto dos passarinhos e dos sinos tocando encheu meu coração de alegria. Gritei ao meu pai:
— Pai, todos os passarinhos estão na igreja deles.

E depois eu disse: — Por que não vamos à igreja?

Meu pai levantou a cabeça e disse: — Nós iremos.

— Agora? — perguntei.

— Não, é muito tarde. Mas iremos num outro domingo.”

A montanha dos sete patamares, (Editora Vozes, Petrópolis), 2005, pág. 15

18 abril 2016

Valores universais


"Gandhi tinha o maior respeito pelo cristianismo, por Cristo e pelo Evangelho. Seguindo seu caminho da satyagraha* acreditava seguir a Lei de Cristo. Seria difícil provar estar ele inteiramente enganado nessa crença ou que fosse ele, em qualquer grau, insincero.

Uma das grandes lições da vida de Ghandi é a seguinte: Ele, um indiano, descobriu, através das tradições espirituais do Ocidente, sua herança indiana e, com ela, seu reto pensar. Ora, na fidelidade à sua própria herança e ao seu sadio equilíbrio, pôde apontar aos homens do Ocidente e de todo o mundo um meio de recuperar o reto pensar dentro de sua própria tradição, manifestando, assim, o fato de que existem certos valores essenciais e indiscutíveis – religiosos, éticos, ascéticos, espirituais e filosóficos – sempre necessários ao homem e que, no passado, conseguiu ele adquirir.

Valores sem os quais não pode viver, valores atualmente em grande escala por ele perdidos, de modo que, sem preparação para enfrentar a vida de maneira plenamente humana, corre agora o risco de destruir-se completamente. Esses valores podem ser denominados “religião natural” ou “lei natural”, seja como for, o cristianismo admite sua existência, pelo menos como preâmbulos à fé e à graça, se não, por vezes, muito mais que isso (Rm 2, 14-15; At 17, 22-31).

Esses valores são universais e é difícil ver-se como possa haver alguma “catolicidade” (cath-holos significa “tudo abranger”) que, mesmo implicitamente, os exclua. Uma das marcas da catolicidade é precisamente a de que valores em toda parte naturais ao homem se realizem, no mais elevado nível, na Lei do Espírito e na caridade cristã. Uma 'caridade' que exclui esses valores não pode reivindicar para si o título de amor cristão."

*Uma palavra fabricada por Gandhi. Sua raiz significa “apegar-se à verdade” e, por extensão, resistência pela não-violência.


Gandhi e a não violência, Thomas Merton (Editora Vozes), 1967, pág. 16 e 17

11 abril 2016

Amor, solidão e verdade


"Como podemos redescobrir essa verdade?
Só quando não mais precisarmos buscá-la – pois, enquanto a buscamos, deixamos implícito que a perdemos. Mas, na realidade, reconhecer-nos enraizados na nossa verdadeira base, o amor, é reconhecer que não podemos ser sem ele.
Esse reconhecimento é impossível sem uma solidão pessoal básica."

Amor e vida, Thomas Merton (Martins Fontes, 2004), pág. 19

27 março 2016

Domingo de Páscoa | Vencendo a morte


28 de março de 1948. Domingo de Páscoa.


"Todas as antífonas de alleluia da Páscoa voltam-me à cabeça como ricas associações dos dias mais felizes da minha vida – as sete temporadas pascoais que já passei no mosteiro, sendo a sétima a que está começando agora: a sabática.
Todas as macieiras floriram na Sexta-feira Santa. Esfriou e choveu, mas hoje está muito claro, com o céu bem limpo. O salgueiro está todo verde. Tudo está em botão.
E, no meu coração, a paz mais profunda, a claridade de Cristo, lúcida e serena e sempre presente como a eternidade. Nessas grandes festas somos levados ao topo de um platô na vida espiritual para termos uma nova visão de tudo. Principalmente na Páscoa. A Páscoa é como o que há de ser, quando, entrando na eternidade, brusca, tranquila e claramente você reconhece seus erros, todos eles, bem como tudo o que fez bem: cada coisa se encaixa em seu lugar.”

Merton na Intimidade – Sua vida em seus diários
 (Editora Fisus, 2001) pág. 61

25 março 2016

Sexta-feira da Paixão | O sofrimento

"SOMENTE os SOFRIMENTOS de Cristo tem valor aos olhos de Deus. Deus odeia o mal, e para Ele é como símbolos que eles têm valor. O infinito sentido e valor da morte de Jesus na cruz não se devem ao fato de ser uma morte, mas sim de ser a morte do Filho de Deus. A cruz de Cristo não diz nada do poder do sofrimento ou da morte. Ela só fala do poder dAquele que venceu o sofrimento e a morte quando ressurgiu do túmulo.

As chagas que o mal imprimiu na carne de Cristo devem ser adoradas não por serem chagas, mas por serem as Suas chagas. Nem as adoraríamos se Ele tivesse simplesmente morrido delas, sem ressuscitar. Pois Jesus não é só alguém que uma vez amou tanto os homens a ponto de morrer por eles. Ele é um homem cuja natureza humana subsiste em Deus, de modo que Ele é uma pessoa divina. O Seu amor por nós é o amor infinito de Deus, mais forte do que o mal e invulnerável à morte.


O sofrimento, pois, só pode ser oferecido a Deus por quem acredita que Jesus não está morto. E é da essência mesma do cristianismo enfrentar o sofrimento e a morte não por serem bons, nem porque tenham um sentido, mas porque a ressurreição de Jesus os despojou de todo sentido."
Homem algum é uma ilha, Thomas Merton
(Editora Verus, 2003) pág. 79-80

20 março 2016

Domingo de Ramos | Ir ao encontro do Senhor


"É impossível encontrá-Lo, enquanto ignoramos  que precisamos Dele. Esquecemos essa  carência quando tomamos gosto das nossas boas obras. Os pobre e o desamparados são os primeiros a encontrá-Lo, pois Ele veio procurar e salvar o que estava perdido."

Homem Algum É uma Ilha, Thomas Merton 
(Agir, 1968) pág. 193

14 março 2016

A caridade na quaresma (e fora dela)

“A essência propriamente dita do cristianismo é a caridade, a unidade em Cristo. (...) Buscar uma união com Deus que implicasse uma separação completa, em espírito e corpo, do resto da humanidade seria, para um santo cristão, não apenas absurdo, mas também o oposto da santidade.

O isolamento no eu, a inabilidade de sair de si para ir ao outro, significaria a incapacidade para qualquer forma de autotranscendência. Portanto, ser prisioneiro de si mesmo é, na verdade, estar no inferno. (...) Na verdade, o amor é a vida espiritual, sem o qual todos os outros exercícios do espírito, embora elevados, ficam esvaziados de conteúdo e tornam-se meras ilusões. E quanto maior a elevação, mais perigosa a ilusão.

O amor, com certeza, significa muito mais do que um simples sentimento, muito mais que favores ínfimos ou doadores de esmolas rotineiros. Amor significa uma identificação interior e espiritual com o irmão para que ele não se torne um ‘objeto’ ao ‘qual’ se ‘faz um bem’”. 
A sabedoria do deserto, Thomas Merton (Editora Martins Fontes), 2004, pág. 18 e 19.

07 março 2016

Quaresma: Quando a nuvem é mais densa


"O eclipse dos sentidos, eis uma nuvem em que a alma se acostuma a andar às cegas, sem parar nas aparências das coisas mutáveis ou no conteúdo emocional da experiência em seus juízos sobre a verdade e o erro, o bem e o mal. Antes de poder ver o Deus vivo, o espírito deve ser cego até às mais altas percepções e juízos da sua inteligência natural. Deve entrar na pura obscuridade, mas esta é pura Luz, é a infinita Luz de Deus mesmo, obscura às mentes finitas."
Ascensão para a verdade, Thomas Merton (Editora Itatiaia), 1999, pág. 44.