07 setembro 2004

A Igreja e o mundo sem Deus



"O humanismo cristão não se baseia na crença de um dinamismo natural e imanente, funcionando quase automaticamente enquanto o homem progressivamente evolui e se torna mais cônscio de suas potencialidades. Baseia-se ele na crema em Deus, como Ser Absoluto, que dotou a pessoa humana de liberdade e a convidou a transcender a natureza pela criatividade do amor e a graça do Espírito Santos. O poder dinâmico, sem o qual não pode haver nenhuma autêntica autotranscedência, é o poder do Espirito divino que não está imanente na natureza, mas e recebido na resposta livre do homem ao dom de Deus, a graça."

Thomas Merton, pág. 60

Gandhi e a não violência

“Uma das grandes lições da vida de Ghandi é a seguinte: ele, um indiano, descobriu, através das tradições espirituais do Ocidente, sua herança indiana e, com ela, seu reto pensar. Ora, na fidelidade à sua própria herança e ao seu sadio equilíbrio, pode apontar aos homens do Ocidente e de todo o mundo um meio de recuperar o reto pensar dentro de sua própria tradição, manifestando, assim, o fato de que existem certos valores essenciais e indiscutíveis — religiosos, éticos, ascéticos, espirituais e filosóficos — sempre necessários ao homem e que, no passado, conseguiu ele adquirir. Valores sem os quais não pode viver, valores atualmente em grande escala por ele perdidos, de modo que, sem preparação para enfrentar a vida de maneira plenamente humana, corre agora o risco de destruir-se completamente. Esses valores podem ser denominados “religião natural" ou "lei natural”, seja como for, o cristianismo admite sua existência, pelo menos como preâmbulos à fé e à graça, se não, por vezes, muito mais que isso. (Romanos, 2, 11-15; Atos, 17, 22—31). Esses valores são universais e é difícil ver-se como possa haver alguma “catolicidade” (cath-holos significa “tudo abranger“) que, mesmo implicitamente, os exclua. Uma das marcas da catolicidade é precisamente a de que valores em toda parte naturais ao homem se realizem, no mais elevado nível, na Lei do Espírito e na caridade cristã. Uma “caridade” que exclui esses valores não pode reivindicar para si o título de amor cristão.”

Thomas Merton, pág. 17


Há uma reflexão extraída do livro, neste blog:

Espiritualidade, Contemplação e Paz



da Introdução

Não há dúvida de que a vocação monástica [é uma das mais belas da Igreja de Deus. A “vida contemplativa", como é em geral chamada hoje a vida das ordens monásticas, é uma vida inteiramente dedicada ao mistério de Cristo, a viver a Vida de Deus que se dá, a Si mesmo, a nós em Cristo. É uma vida totalmente entregue ao Espírito Santo, vida de humildade, obediência, solidão, de silêncio, oração, onde renunciamos aos desejos e orientação pessoais para viver na liberdade dos filhos de Deus, guiados pelo Espírito Santo que fala através de nossos Superiores, de nossa Regra, pelas inspirações de Sua graça no íntimo dos corações. Vida de total oblação a Deus em união com Jesus que foi crucificado por nós, ressuscitou dos mortos e vive em nós por Seu Santa Espírito.


Todavia, por mais bela que seja esta vida, simples e elevada tal como a tradição monástica no-la mostra, os monges são seres humanos e a humana fragilidade tende sempre a diminuir ou a deturpar a integridade do que nos foi dado por Deus. E é tanto mais de se lamentar que algumas almas, cheias de boa vontade e de generosidade, abraçam a vida monástica e acabam vendo sua boa disposição dispersa em futilidades e na rotina. Em vez de viver a vida monástica em sua pureza e simplicidade, tendemos sempre a complica-la ou pervertê-la graças a nossa visão limitada e desejos humanos demais. Damos exagerada importância a aspectos parciais da vida, desequilibrando assim o conjunto. Ou então caímos naquela miopia espiritual que só vê pormenores e perde de vista a grande unidade orgânica em que fomos chamados a viver. Em resumo, para compreender as inúmeras regras e observâncias da vida monástica, precisamos ter sempre diante dos olhos a significação real do monarquismo. Para não nos embaraçarmos nos meios que nos são dados, é-nos preciso relacioná-los sempre com seu fim.


Somente à luz do mistério de Cristo podem ser vistas as grandes finalidades da vida monástica. Cristo é o centro do monaquismo. Sua fonte e seu fim. É o caminho do monge tanto quanto seu alvo. Prescrições monásticas e observâncias, práticas de ascetismo monástica e oração devem ser continuamente integradas nesta realidade mais alta. Vistas sempre como parte de uma realidade viva, como manifestações de uma vida divina, mais do que elementos de um sistema ou manifestações apenas de um dever. O monge faz mais do que conformar-se com prescrições e ordens que não pode compreender - deixa de lado sua vontade para viver em Cristo. Renuncia a uma liberdade inferior em vista de outra mais alta. Mas, para que sua renúncia seja frutuosa e válida, precisa ter o monge alguma ideia do que está fazendo.


O intento destas notas é examinar brevemente os grandes princípios teológicos sem os quais observância monástica e vida monástica não teriam sentido. As verdades aqui apresentadas assumem obrigatoriamente forma muito condensada. Quem quiser entende-las terá de lê-las, pensando-as, na presença de Deus.

Embora escritas para monges e, em particular, para noviços e postulantes cistercienses, poderão estas páginas interessar a todo religioso e mesmo a todo cristão, já que a vida monástica é tradicionalmente considerada como a pura vida cristã, a perfeita vida "em Cristo". Um caminho seguro para o cume daquela comum perfeição da caridade a que Jesus chamou quantos deixaram o mundo para seguí-Lo ao céu.

Há 05 postagens desta obra no blog:

Eu vos dou a minha paz
Forças poderosas (parte1)
Forças poderosas (parte 2)
Forças poderosas (parte 3 - final)
O caminho obscuro da contemplação