07 setembro 2004

Zen e as aves de rapina

Onde jaz uma carcaça, aves de rapina voam em círculo e descem. A vida e a morte são duas coisas. Os vivos atacam os mortos, em proveito próprio. Os mortos nada perdem com isso. Ganham até, desaparecendo. Ou parecem ganhar, se é que devemos pensar em termos de perda e ganho. Será que abordamos o estudo do Zen com idéia de que existe algo a ganhar com isso? Essa pergunta não pretende ser acusação implícita. É, no entanto, uma pergunta séria. Onde se faz um espetáculo em torno de “espiritualidade”, “iluminação”, ou simplesmente de “ligar”, isso muitas vezes acontece porque abutres estão esvoaçando em redor de um cadáver. Esse voltear, esse vôo em círculo, esse descer, essa celebração de uma vitória não é o que significa o estudo do Zen (embora possa ser um exercício altamente útil noutros contextos e enriquece as aves de rapina).

O Zen a ninguém enriquece. Não há ninguém para ser encontrado. As aves podem vir e esvoaçar em círculo por algum tempo no lugar onde se pensa estar o Zen. Mas, bem depressa, deslocam-se para outras paragens. Quando já se foram, o “nada”, o “ninguém” que ali estava de repente aparece. Isto é o Zen. Ali estava o tempo todo, mas os abutres não o viram, pois não era seu tipo de presa.

(Nota do Autor)

A Search for Solitude

Terceiro volume dos diários póstumos este volume tem como subtítulo (em português) “A busca da verdadeira vida de um monge”. Nesta obra Thomas Merton registra suas tentativas de conciliar seu desejo de solidão e contemplação com as demandas criadas pela sua recente celebridade como autor, dentro das rígidas estruturas da vida monástica habitual. Cobre o período de julho de 1952 a 1960. Quando começou suas anotações já vivia no mosteiro por mais de dez anos e a publicação de A montanha dos sete patamares ,em 1948, já o havia tornado muito conhecido em todo o mundo católico.

Onze reflexões extraídas desse livro foram publicadas no blog até o momento (clique nos títulos para ler a reflexão):

A árvore vai cair
Árvores
Física moderna e os monges
Nossa semelhança com Deus começa em casa
O antigo e o novo
O enterro de Herman Hanekamp
Olhando o universo
Preciso de ti
Somos o Corpo de Cristo!
Um mundo sendo criado e renovado
Vosso amor me acompanhou nesta viagem

O Vinho do Silêncio



Há quem diga que poetas só devem ser traduzido: por poetas. E a quem diga que a poesia é intraduzível. Efetivamente, há uma parte da poesia que é, em geral, intraduzível: a sua música, a melodia que se desprende de suas palavras, melodia que varia de língua para língua, quando a sonoridade de uma palavra não encontra na língua para que é traduzida a mesma música. Mas a outra parte, a que é alma é essência da poesia, o seu pensamento, a sua realidade interior, essa pode ser transposta. E é aqui que vale a exigência de ser o tradutor de um poeta igualmente poeta, contanto que o poeta tradutor se submeta a regra máxima da tradução: o espirito de humildade, isto é, o respeito ao pensamento alheio, a reprodução fiel e autêntica da mensagem que deve transmitir.

No caso desta tradução dos poemas de Thomas Merton, o monge-poeta que a morte recentemente arrebatou, duma maneira inesperada e trágica, temos um poeta, Carmen de Mello, traduzindo outro poeta. Para essa tarefa, difícil, responsável, a escritora mineira não se afoitou, frivolamente. Leu, atentamente a obra de Thomas Merton, quer em prosa, quer em poesia. Saturou-se de sua mensagem, embebeu-se de seus eflúvios, adentrou-se pelas intimidades de seu pensamento e de seu sentimento, pensou e tem as suas ideias e as suas imagens, buscou desvendar os mistérios de seu subconsciente. E só então, após tão longas vigílias, atreveu-se a transpor para a nossa língua a poesia densa, profunda, toda pervadida de sobrenatural, do poeta trapista. Tradutor de milhentas páginas de prosadores e de poetas, posso bem imaginar o árduo labor de Carmen de Melo no afã de carrear para nossa língua, não a música, mas a essência do pensamento e da emoção do poeta-monge. Parece-me que o conseguiu, graças à humildade com que levou a cabo a sua tarefa. Fiel se manteve a mensagem íntima do poeta, ao seu ritmo, às imagens e às suas metáforas. Deu-lhe em nossa língua aquela autêntica similitude que não deixou que o perfume poético se evaporasse, fazendo o leitor sentir o suave odor sobrenatural que impregna a poesia do monge. A paga de seus trabalho teve-a ela já, porém. Na carta que lhe escreveu, o próprio Thomas Merton deu-lhe o nihil obstat, reconhecendo que Carmen de Mello não foi o tradittore da ironia italiana, mas o mensageiro que transmitiu em fidelidade sua mensagem de beleza e poesia.

(orelha do livro, Oscar Mendes)

A Igreja e o mundo sem Deus



"O humanismo cristão não se baseia na crença de um dinamismo natural e imanente, funcionando quase automaticamente enquanto o homem progressivamente evolui e se torna mais cônscio de suas potencialidades. Baseia-se ele na crema em Deus, como Ser Absoluto, que dotou a pessoa humana de liberdade e a convidou a transcender a natureza pela criatividade do amor e a graça do Espírito Santos. O poder dinâmico, sem o qual não pode haver nenhuma autêntica autotranscedência, é o poder do Espirito divino que não está imanente na natureza, mas e recebido na resposta livre do homem ao dom de Deus, a graça."

Thomas Merton, pág. 60

Gandhi e a não violência

“Uma das grandes lições da vida de Ghandi é a seguinte: ele, um indiano, descobriu, através das tradições espirituais do Ocidente, sua herança indiana e, com ela, seu reto pensar. Ora, na fidelidade à sua própria herança e ao seu sadio equilíbrio, pode apontar aos homens do Ocidente e de todo o mundo um meio de recuperar o reto pensar dentro de sua própria tradição, manifestando, assim, o fato de que existem certos valores essenciais e indiscutíveis — religiosos, éticos, ascéticos, espirituais e filosóficos — sempre necessários ao homem e que, no passado, conseguiu ele adquirir. Valores sem os quais não pode viver, valores atualmente em grande escala por ele perdidos, de modo que, sem preparação para enfrentar a vida de maneira plenamente humana, corre agora o risco de destruir-se completamente. Esses valores podem ser denominados “religião natural" ou "lei natural”, seja como for, o cristianismo admite sua existência, pelo menos como preâmbulos à fé e à graça, se não, por vezes, muito mais que isso. (Romanos, 2, 11-15; Atos, 17, 22—31). Esses valores são universais e é difícil ver-se como possa haver alguma “catolicidade” (cath-holos significa “tudo abranger“) que, mesmo implicitamente, os exclua. Uma das marcas da catolicidade é precisamente a de que valores em toda parte naturais ao homem se realizem, no mais elevado nível, na Lei do Espírito e na caridade cristã. Uma “caridade” que exclui esses valores não pode reivindicar para si o título de amor cristão.”

Thomas Merton, pág. 17


Há uma reflexão extraída do livro, neste blog: