06 junho 2005

Sinais de esperança

“ Embora tenhamos o poder de destruir o mundo inteiro, a vida é mais forte do que o instinto da morte. O amor é mais forte do que o ódio. Não há sentido lógico em entregar-se demasiadamente à esperança, mas, repito, não é isso uma questão de lógica, e não se procuram nos jornais sinais de esperança ou nos pronunciamentos dos líderes mundiais (nesses, raramente há algo que dê esperança, pois aquilo que pretende ser animador é, em geral, de tal maneira vazio de esperança que somos levados ao quase desespero). Porque existe amor no mundo e porque Cristo assumiu nossa natureza, permanece sempre a esperança de que o homem, finalmente, depois de cometer muitos erros e ocasionar muitos desastres, haverá de aprender a desarmar-se e promover a paz. Há de reconhecer que tem de viver em paz com seu irmão. Contudo, nunca estivemos menos dispostos a realizar tal coisa.

Conjectures of a Guilty Bystander, de Thomas Merton
(Image Books, uma divisão da Doubleday & Co., Garden City, NY), 1968. p. 214
No Brasil: Reflexões de um espectador culpado, (Editora Vozes, Petrópolis), 1970. p. 249
Reflexões da semana de 6-06-2005

23 maio 2005

A capacidade de amar

“ A maior dignidade do homem, seu poder essencial e peculiar, o segredo mais íntimo daquilo que constitui sua humanidade, é a capacidade que ele tem de amar. Esse poder escondido nas profundezas da alma humana imprime no homem a imagem e semelhança de Deus. Diferentes das demais criaturas que nos cercam, temos o poder de penetrar no mais íntimo santuário do nosso próprio ser. Podemos penetrar em nós como em templos de liberdade e de luz. Podemos abrir os olhos de nosso coração e contemplar face a face Deus, nosso Pai. Podemos com Ele falar e ouvir-lhe a resposta. E Ele nos diz não apenas que somos chamados a viver como homens e dominar o mundo, mas que temos uma vocação ainda mais elevada. Somos seus filhos.”

Disputed Questions, de Thomas Merton
(Harcourt Brace Jovanovich, San Diego, CA), 1960. p. 98
No Brasil: Questões abertas, (Agir Editora, Rio de Janeiro), 1963. p. 116
Reflexões da semana de 23-05-2005

16 maio 2005

O poder sobre o mundo e a infelicidade

“ A infelicidade do homem parece ter aumentado na proporção do seu poder sobre o mundo externo. E, se alguém pretende possuir uma resposta pronta a esse fato, tome cuidado para não ser também vítima de uma ilusão. Pois, afinal, não deveria isso necessariamente ser assim. Deus fez o homem rei da criação, e toda ciência digna desse nome participa, de algum modo, da sabedoria e da providência do Criador. Mas a desordem está em que as realizações da sabedoria, do conhecimento e poder do homem não têm valor real algum para o mundo em que vive, se não participam do amor misericordioso de Deus. Nada conseguem para torná-lo feliz e não tornam manifesta ao mundo a glória de Deus.

Disputed Questions, de Thomas Merton
(Harcourt Brace Jovanovich, San Diego, CA), 1960. p. 98
No Brasil: Questões abertas, (Agir Editora, Rio de Janeiro), 1963. p. 115-116
Reflexão da semana de 16-05-2005

09 maio 2005

Respostas obrigatórias

“ Tenho uma profunda desconfiança de todas as respostas obrigatórias. O grande problema de nosso tempo não é formular respostas claras para questões teóricas bem apresentadas (…) A maneira de encontrar o verdadeiro “mundo” não está em apenas observar e medir o que se acha fora de nós, mas sim em descobrir o íntimo de nosso ser. Pois é aí que se encontra o mundo em primeiro lugar: no meu mais profundo eu. Mas acontece que descubro ali que o mundo é bem diferente das “respostas obrigatórias”. Essas “bases”, esse “mundo” onde estou misteriosamente presente ao mesmo tempo a mim mesmo e às liberdades de todos os homens, não é um objetivo visível e uma determinada estrutura com leis fixas e exigências. É um mistério vivo e autocriador do qual sou uma parte, e para o qual sou a única porta de acesso. Quando encontro o mundo no mais profundo do meu ser, é-me impossível ser por ele ‘alienado’.”

Contemplation in a World of Action, de Thomas Merton
(Image Books, uma divisão da Doubleday & Co., Garden City, NY), 1973. p. 168 e 170
No Brasil: Contemplação num mundo de ação, (Editora Vozes, Petrópolis), 1975. p. 152 e 154
Reflexões da semana de 9-05-2005

02 maio 2005

O divino na natureza das coisas

“ Verdadeiro tempo de primavera — estes são os dias quando tudo muda. Brotam folhas em todas as árvores e o começo de um verde frescor do novo verão permeia as colinas. Insubstituível pureza desses dias escolhidos por Deus como seu sinal!

Mistura do celestial com a angústia. Ver subitamente o celestial, por exemplo, no branco puro das flores da macieira contra um fundo de pinheiros escuros num jardim nublado. O celestial também na canção do pássaro desconhecido que lá está de passagem, talvez apenas por estes dias, profunda e simples canção de amor. Arrebata-me esta ‘celestialidade’ como eu fosse uma criança — uma mente de criança que nada fiz por merecer e que é minha própria parte na primavera celestial. Não é deste mundo, nem por mim foi criada. Nascida, em parte, de angústia física (que, entretanto, não está realmente ali. Vai-se depressa). A percepção de que o celestial é a verdadeira natureza das coisas, não sua natureza, e sim o fato de que são um dom de amor e de liberdade.”

A Year with Thomas Merton, Daily Meditations from His Journals
Selecionado e editado por Jonathan Montaldo
(HarperSanFrancisco, A Division of HarperCollinsPublishers, New York), 2004, p. 120.
Reflexões da semana de 02-05-2005