17 outubro 2005

Admiração por meus atos

“ O profundo mistério do meu ser freqüentemente me é oculto pelo conceito que faço de mim mesmo. A idéia que faço de mim mesmo é falsificada pela admiração que tenho por meus atos. E as ilusões que acalento a meu respeito são produzidas pelo contágio das ilusões de outros homens. Cada qual procura imitar a imaginária grandeza do outro.

Se não me conheço, é que penso ser a espécie de pessoa que meu círculo desejaria que eu fosse. Talvez nunca me tenha perguntado se realmente desejo ser aquilo que os outros parecem querer de mim. Se somente me desse conta de que não admiro o que todos parecem admirar, talvez começasse a viver realmente. Passaria a me ver liberto do doloroso dever de dizer o que realmente não penso e de agir de uma forma que atraiçoa a verdade de Deus e a integridade da minha alma.”

No Man is an Island, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace Jovanovich Inc., New York), 1983. p. 125-126
No Brasil: Homem algum é uma ilha, (Verus Editora, Campinas), 2003. p. 115-116
Reflexão da semana de 17-10-2005

10 outubro 2005

Encontro com o outro

“ O amor é a revelação de nosso mais profundo valor, identidade e significação pessoal. Mas essa revelação permanece impossível enquanto formos prisioneiros de nosso egoísmo. Não posso me encontrar em mim mesmo, somente num outro. Meu verdadeiro sentido e valor me são mostrados não na avaliação que faço de mim mesmo, mas nos olhos daquele que me ama; e este deve me amar como sou, com minhas falhas e limitações, revelando-me a verdade de que essas falhas e limitações não podem destruir meu valor a seus olhos; e que tenho, portanto, valor como pessoa, a despeito de minhas falhas, a despeito das imperfeições do meu “pacote” exterior. O pacote não tem nenhuma importância. O que importa é essa mensagem infinitamente preciosa que só posso descobrir no meu amor por uma outra pessoa. E essa mensagem, esse segredo, não me é plenamente revelado a menos que, ao mesmo tempo, eu seja capaz de ver e compreender o valor único e misterioso daquele que amo.

Love and Living, de Thomas Merton
Editado por Naomi Burton Stone e Patrick Hart, OCSO
(A Harvest/HBJ Book, Harcourt Brace Jovanovich, San Diego), 1979. p. 35
No Brasil: Amor e Vida, (Martins Fontes Editora, São Paulo), 2004. p. 36-37
Reflexão da semana de 10-10-2005

05 setembro 2005

Bastará o medo?

“ Onde há um amor profundo, simples, total, pelo homem, inclusive por todos os seres vivos, e ainda mesmo pelas coisas inanimadas, haverá então respeito pela vida, pela liberdade, pela verdade, pela justiça, e haverá um amor humilde por Deus. Mas quando não houver amor pelo homem, nem amor pela vida, então podemos fazer as leis que quisermos, baixar todos os editos, celebrar todos os tratados, promulgar todos os anátemas, poderemos levantar todas as barreiras, promover todas as inspeções, encher o espaço de satélites-espiões e até mesmo pendurar na lua máquinas fotográficas. Enquanto considerarmos o nosso próximo como um ser a quem devemos essencialmente temer e odiar, de quem devemos desconfiar e a quem devemos destruir, — não haverá possibilidade de paz sobre a terra. E quem poderá dizer se bastará o medo para evitar uma guerra de aniquilamento total?”

Seeds of Destruction, de Thomas Merton
(Farrar, Straus and Giroux, New York), 1964. p. 183
No Brasil: Sementes de destruição, (Editora Vozes, Petrópolis), 1966. p. 181-182
Reflexão da semana de 5-09-2005

22 agosto 2005

Amor egoísta de si

“ A inconstância e a indecisão são sinais de amor egoísta de si.

Se jamais conseguimos decidir com firmeza o que Deus quer para nós, mas constantemente damos voltas mudando de opinião, de uma prática para outra, de uma devoção para outra, de um método para outro, pode ser isso uma indicação de que o que queremos é contornar a vontade de Deus e fazer a nossa com uma consciência tranqüila.

Assim que o Senhor nos coloca num mosteiro, queremos ir para outro.

Logo que experimentamos uma forma de oração, queremos tentar outra. Estamos constantemente tomando resoluções e mudando-as por contra-resoluções. Interrogamos nosso confessor e não nos lembramos das respostas. Antes de terminar um livro, iniciamos a leitura de outro e a cada livro que lemos mudamos completamente o plano de nossa vida interior.

Em breve, não teremos mais vida interior. Toda a nossa existência será um labirinto de desejos confusos, sonhos vãos e veleidades, em que nada fazemos a não ser destruir a obra da graça. Pois tudo isso é apenas um vistoso e complicado plano subconsciente de nossa natureza para resistir a Deus, Cuja atuação em nossa alma exige o sacrifício de tudo que desejamos e em que nos satisfazemos, e, em realidade, o sacrifício de tudo que somos.

Permaneçamos, portanto, quietos e deixemos o Senhor fazer algum trabalho.

É isso que significa renunciar não só aos prazeres e ao que possuímos, mas até a nós mesmos.”
New Seeds of Contemplation, de Thomas Merton
(New Directions, New York),1972. p. 260-261
No Brasil: Novas sementes de contemplação (Editora Fissus, Rio de Janeiro). 2001. p. 254-255
Reflexão da semana de 22-08-2005

08 agosto 2005

Acumulando bens e satisfações

“ O “eu” superficial do individualismo pode ser possuído, desenvolvido, cultivado, mimado, satisfeito; é o centro de todo nosso esforço na luta para acumular bens e satisfações, sejam eles materiais ou espirituais. Mas o “eu” profundo do espírito, da soledade e do amor não pode ser “obtido”, possuído, desenvolvido, aperfeiçoado. Só pode ser e agir de acordo com leis interiores e profundas que não são de fabricação humana, mas emanam de Deus. São as Leis do Espírito que, semelhante ao vento, sopra onde quer. Esse “eu” interior, que está sempre em soledade, é também sempre universal. Pois, nesse “eu” íntimo em extremo, minha soledade se encontra com a soledade de todos os homens e com a de Deus.
Disputed Questions, de Thomas Merton
(Harcourt Brace Jovanovich, San Diego, CA), 1960. p. 207
No Brasil: Questões abertas, (Agir Editora, Rio de Janeiro), 1963. p. 230
Reflexão da semana de 8-08-2005