26 novembro 2018

Para libertar os corações

“Na solidão da vida monástica o monge começa a sentir de maneira obscura que grandes áreas são nele abertas em profundidade no mais íntimo de seu ser; e que o carisma de sua vocação monástica exige uma obediência que se processa num abismo demasiadamente profundo para ser por ele compreendido. Trata-se de uma obediência que impregna as raízes do ser. Essa obediência é muito mais fácil do que qualquer deferência para com a vontade de um homem. Contudo deve ela ser testada por uma regra, uma disciplina e pela submissão às vontades de outros. Sem isso é pura ilusão. Entretanto, para que as regras e as ordens mantenham seu valor na vida monástica, devem ser consideradas em seu correto relacionamento com o escopo definitivo da vida monástica. A obediência monástica não existe para fabricar autômatos (...), existe para libertar os corações e os espíritos a fim de permitir-lhes penetrar na terrível obscuridade da contemplação, que linguagem alguma é capaz de expressar e nenhuma racionalização pode explicar. E deve ser sempre lembrado que essa libertação contemplativa é um dom de Deus.”

(Vozes, 1975) pág. 41

20 novembro 2018

Esperar pacientemente a hora da graça

“Algumas pessoas podem, sem dúvida, ter o dom espontâneo da oração meditativa. Hoje em dia, isso é raro. A maior parte dos homens tem de aprender como meditar. Existem maneiras de meditar. Não devemos, entretanto, esperar encontrar método mágicos, sistemas que façam toda as dificuldades e obstáculos se dissolverem no ar. A meditação é, por vezes, muito difícil. Se sustentarmos com coragem as durezas na oração e esperarmos pacientemente a hora da graça, bem poderemos descobrir que a meditação e a oração são experiências que nos trazem grande alegria. Não devemos, porém, julgar o valor de nossa meditação partindo de ‘como nos sentimos’. Uma oração dura e aparentemente infrutífera pode, de fato, ter muito mais valor do que outra mais fácil, feliz, iluminada e que pareça bem-sucedida.”

A oração contemplativa
(Ecclesiae, 2018) pág. 53-54

12 novembro 2018

Esmagado pela santidade de Deus

“Um santo não é somente o homem que sabe possuir virtudes e santidade; mas o homem que é esmagado pela santidade de Deus. E, por isso, as coisas tornam-se sagradas na medida em que são compartilhadas por Deus. Todas as criaturas são sagradas até o ponto em que participam de Seu ser; mas os homens são encorajados a se fazerem santos por um meio mais elevado, isto é, por participarem de Sua transcendência, elevando-se acima do nível das coisas que não são Deus.”

(Mérito, 1954) pág. 297

29 outubro 2018

A sempre repetida mesmidade

“Aqui devemos fazer uma pequena pausa para considerar a diferença entre uma visão secular e uma visão sagrada da vida.  A expressão ‘o mundo’ é talvez muito vaga. Não se refere simplesmente a ‘tudo que está em torno de nós’ ou ao universo criado. O universo não é mau, é bom. O ‘mundo’, no mau sentido, certamente não é o cosmos, embora escritos de alguns autores cristãos neoplatônicos surgiram este significado para expressão. Para eles saeculorum é o que é temporal, o que muda, da volta e retorna ao ponto de partida. Isso se deve a influências gnósticas e platônicas que se infiltraram no cristianismo, persuadindo os homens de que o universo é regido por anjos mais ou menos caídos (‘as potências dos ares’). Nosso adjetivo ‘secular’ é proveniente do latim saeculum, que significa tanto ‘mundo’ quanto ‘século’. A etimologia da palavra é incerta. Talvez esteja relacionada ao grego kuklon, ‘roda’, do qual tiramos ‘ciclo’. Portanto, originariamente, o ‘secular’ era o que percorre, interminavelmente ciclos sempre recorrentes. Isto é o que faz ‘a sociedade mundana’ cujos horizontes são de uma sempre repetida mesmidade:
                Uma geração vai, uma geração vem, e a terra sempre permanece. O Sol se levanta, o Sol se deita, apressando-se a voltar ao seu lugar e é lá que ele se levanta. O vento sopra em direção ao sul, gira para o norte, e girando e girando vai o vento em suas voltas (...) o que foi, será, o que se fez, se tornará a fazer: nada há de novo debaixo do Sol! (...) Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. (Ecl 1).”


(Martins Fontes, 2007), pág. 72

16 outubro 2018

Nosso egocentrismo

“A frutificação da nossa vida depende, em grande parte, da habilidade em duvidar das nossas próprias palavras e em desconfiar do valor do nosso trabalho. O homem que confia inteiramente no conceito em que se tem é condenado à esterilidade. Só uma coisa ele exige a uma ação, que seja feita por ele. Se é ele quem a pratica, deve ser boa. Suas palavras devem ser infalíveis. O carro que acabou de comprar é o melhor desse preço. E isso exclusivamente porque foi ele quem o comprou. Não querendo outros frutos, ele não obtém geralmente senão estes.”

(Agir, 1976) pág. 116

08 outubro 2018

Nossas contradições

A rejeição de Cristo. Os seus não o receberam.

A coisa mais terrível a respeito da rejeição de Jesus foi ter sido rejeitado pelos santos, e rejeitado porque era Deus!

Os Fariseus rejeitaram Deus porque Ele não era Fariseu.

Os Fariseus nada quiseram ter com Deus porque Deus mostrou que não era feito à própria imagem deles! ‘Eu vim em nome do meu Pai e vós não me recebeis; se vier outro em seu próprio nome, haveis de recebe-lo’. (Jo 5,43).

O que está implícito na expressão ‘em nome de meu Pai’? Jesus quando veio a nós nada tinha de Seu. Não apenas não tinha lugar onde descansar a cabeça, não somente estava pobre na terra, mas explica que o fato de Sua origem divina significa que Ele nada tem de Seu. E todavia, Ele é tudo. (...) A prova de nossa amizade e admiração por Deus está na maneira como recebemos Aquele que não pode vir a nós em Seu próprio nome.

Aqueles que vivem por si, que vivem ‘por seu próprio nome’, não podem acreditar em tal Deus porque Ele contraria tudo aquilo em que acreditam e por que vivem. Não se dirigirão e Ele para receberem vida porque Ele não recebe glória dos homens. Claritatem ab hominibus non accipio*.


(Mérito, 1954) pág. 248

*Não recebo a glória que vem dos homens (Jo 5, 41)

02 outubro 2018

O silêncio é a força da nossa vida interior

“Recebemos no coração o silêncio de Cristo, quando pela primeira vez falamos de coração a palavra da fé. Conseguimos a salvação no silêncio e na esperança. O silêncio é a força da nossa vida interior. Ele entra no próprio coração do nosso ser moral, e de tal forma que, se não temos silêncio, não temos moralidade. O silêncio entra misteriosamente na composição de todas as virtudes e preserva-as da corrupção.”

(Agir, 1976) pág. 212

25 setembro 2018

O que há de mais perfeito

... e mais individual na vida de cada homem é exatamente o elemento que não pode ser reduzido a uma fórmula comum. O elemento que não pertence a ninguém, que é nosso e de Deus. É nossa vida, real e incomunicável, a vida que foi planejada e realizada para nós no seio de Deus. (...) Amar a Deus é tudo. E amar é bastante. Nada mais tem valor, exceto, na medida em que seja transformado e elevado pela caridade de Cristo. Mas a coisa mais insignificante, tocada pela caridade, se transforma imediatamente e se torna sublime.

(Mérito, 1954) pág. 209-210

17 setembro 2018

Uma mensagem de poder transformador

“A Palavra de Deus é (...) capaz de dar provas de autenticidade pelo seu poder transformador que opera uma invasão de amor, unidade, paz, compreensão mútua e liberdade, onde havia antes preconceito, conflito, ódio, divisão e ganância.

A mensagem da Bíblia consiste, então, em que, na plena confusão do mundo do homem com suas divisões e seus ódios, penetrou uma mensagem de poder transformador e aqueles que nela creem haverão de experimentar e reconhecer em si o amor que opera a reconciliação e a paz no mundo.”


(Vega, 1975) pág. 11

10 setembro 2018

A fonte de toda a verdade

“Ao escrever sua Regra para Monges, São Bento de Núrsia o fazia para homens cujo único fim na vida era Deus. Haverá, afinal, outro fim para alguém? Todos os homens buscam a Deus, ainda que não o saibam. São Paulo já o dissera aos habitantes de Atenas: ‘O Deus que fez o mundo e todas as coisas que há nele... fez toda a linhagem humana, para povoar toda a face da Terra. Fixou as estações e os confins dos povos, para que procurem a Deus e, mesmo às apalpadelas, o achem, pois Ele não está longe de nós, porquanto nele vivemos e nos movemos e existimos’ (At 17, 24-28). Mesmo aqueles que dizem não acreditar em Deus buscam-no pelo próprio fato de o negarem; pois não lhe negariam a existência se não acreditassem ser verdadeira a sua negação: Ora, Deus é a fonte de toda a verdade.”

(Vozes, 2008) pág. 21

03 setembro 2018

O prazer de renunciar

“O prazer que é um bem tem mais interesse na virtude do que no pecado. Uma virtude bem decidida a pagar o preço da renúncia experimentará, no devido tempo, um maior prazer nas coisas que renunciou do que poderia jamais desfrutar o pecador que tão desesperadamente se apega às criaturas como se fossem o seu deus.”

(Verus, 2003) pág. 101

28 agosto 2018

Penetrar no mistério de Deus

“Todo cristão batizado está obrigado pelas promessas de seu batismo a renunciar ao pecado e a se entregar totalmente, sem condições, ao Cristo, de maneira a poder realizar sua vocação, salvar a alma, penetrar no mistério de Deus e lá achar-se em plenitude ‘na luz do Cristo’.

São Paulo, de fato, nos adverte (1Cor 6,19) de que ‘não nos pertencemos’. Somos inteiramente de Cristo. O Espírito do Senhor se apoderou de nós no batismo. Somos templos do Espírito Santo. Nossos pensamentos e desejos, nossas ações são, de direito, mais dele do que nossos. Todavia, temos de lutar para estarmos seguros de que Deus recebe de nós o que lhe devemos. Se não combatemos para dominar nossa fraqueza natural, nossas paixões desordenadas e egoístas, o que em nós pertence ao Senhor estará subtraído ao poder santificador de seu Amor, e corrompido pelo egoísmo. Estará, ainda, mergulhado na cegueira dos desejos irracionais, empedernido pelo orgulho, resvalando finalmente para o abismo moral do ‘nada’ que se denomina pecado.”


(Herder, 1965) pág. 23-24

20 agosto 2018

Oração, leitura, meditação e contemplação

“No caminho da oração, como é descrito pelos escritores dos primórdios do monaquismo, a meditatio deve ser considerada em sua relação estreita com a psalmodia, a lectio, a oratio, e a contemplatio. Faz parte de um todo em continuidade, de vida inteira unificada, do monge: a conversatio monástica, o voltar-se do mundo para Deus. Separar a meditação da oração, da leitura e da contemplação é falsificar a imagem que temos do caminho monástico de oração. À medida que o caráter mais contemplativo da meditação se acentua, vemos que é, não só um meio em relação a um fim, mas que tem também algo da natureza da oração. Daí não ser tanto um caminho que nos leva a encontrar a Deus, como um meio de repousarmos Naquele que já encontramos, que nos ama, que está perto de nós, que vem a nós para atrair-nos a Ele: Dominus enim prope est¹. Oração, leitura, meditação e contemplação enchem o aparente ‘vácuo’ da solitude e do silêncio monásticos com a realidade da presença de Deus. E, assim, aprendemos o verdadeiro valor do silêncio e chegamos a experimentar o vazio e a futilidade daquelas formas de distração e inútil e supérflua comunicação que em nada contribuem para a seriedade e simplicidade da vida de oração.”

1. N. da T. – “O Senhor está perto”, (Fl 4, 5)

(Agir 1972) pág. 50-51

13 agosto 2018

Voltar ao Pai

“Uma coisa é importante acima de tudo mais: ‘voltar ao Pai’. O Filho veio ao mundo e morreu por nós, ressuscitou e subiu para o Pai. Enviou-nos o Espírito Santo para que Nele e com Ele pudéssemos voltar ao Pai.

Sim, para que pudéssemos passar completamente para além da névoa de tudo que é transitório e inconclusivo: Voltar ao Imenso, ao Primordial à Fonte, ao Inconhecido, àquele que ama e conhece, ao Silencioso, ao Misericordioso, ao Santo, Àquele que é tudo.

Procurar algo, preocupar-se com algo fora disso, é loucura e enfermidade. Pois isso é o sentido pleno e o cerne de toda existência. E é nisso que todos os negócios de nossa vida e todas as necessidades do mundo e dos homens tomam seu sentido certo. Tudo aponta para essa única grande volta à Fonte.”


(Vozes, 1970) pág. 198

06 agosto 2018

Receita para a liberdade

"Ser pouco, ser nada, alegrar-me com minhas imperfeições, sentir-me feliz por não ser digno de atenção, por não ter nenhuma importância no universo. Esta é a única libertação. O único caminho para a verdadeira solidão."

(Mérito, 1954) pág. 131

23 julho 2018

Louvar a Deus!

"Saberemos o que significa louvar, adorar, da glória?

Hoje em dia, ‘louvar’ não é coisa que custe por aí além. Tudo é louvado, desde o sabão à cerveja, da pasta de dentes às roupas, dos colutórios às estrelas de cinema e a todo tipo de aparelhagem que, assim se crê, há-de tornar-nos a vida mais cômoda. A tal ponto e com tal insistência sobem de tom os encomios, que não há quem se não sinta infartado deles. Uma vez que tudo é louvado (com tão falsos entusiasmos, como os dos locutores de rádio), forçoso é concluir que, ao fim e ao cabo, nada é louvado. O louvor converteu-se em algo vazio e desinteressante.

Sobrou algum superlativo para Deus? Não; todos foram gastos nos gêneros alimentícios, nos falsos remédios. Não ficou nenhuma palavra para exprimir a nossa adoração ao único que é Santo, ao único que é Senhor."

Rezar os Salmos
Editorial Franciscana, Portugal, pág. 13

17 julho 2018

O clima da oração monástica

"O clima em que a oração monástica floresce é o clima do deserto¹ onde falta ao homem o conforto, onde a segurança das rotinas das cidades do homem não oferece apoio e onde a oração tem de ser sustentada por Deus, na fé pura. Embora possa viver numa comunidade, o monge terá de explorar a aridez de seu ser íntimo como um solitário. A Palavra de Deus, que é seu conforto, é também sua desolação. A liturgia que é a alegria do monge e que lhe revela a glória do Senhor, não pode encher um coração que não foi primeiro humilhado e esvaziado pelo temor. Aleluia é o canto do deserto".

1.    Isaías 35, 1-10

(Agir, 1972) pág. 47

09 julho 2018

O problema da Parusia

... permanece o grande problema do cristianismo. E é evidente, não se trata absolutamente, em si, de um problema. O reino já está estabelecido, porém, não definitivamente manifestado - permanecemos num tempo de desenvolvimento, de opção e de preparação.

 (Vozes, 1970) pág.142

03 julho 2018

Despertar contemplativo

“Pelo simples fato de todos os homens buscarem instintivamente, de um modo ou de outro, o despertar de seu verdadeiro eu interior, todas as formas sociais válidas de religião procuram, de alguma maneira, propiciar uma situação tal em que cada membro do grupo de adoradores possa elevar-se acima do grupo e acima de si mesmo para encontrar a si e aos demais em um nível superior. Isso implica que todas as formas verdadeiramente sérias e espirituais de religião aspiram, ao menos implicitamente, a um despertar contemplativo do indivíduo e do grupo. Mas as formas de religião e adoração litúrgica que perderam o impulso inicial do fervor tendem a esquecer cada vez mais seu propósito contemplativo, passando a dar importância exclusiva aos ritos e às formas cerimoniais por si mesmos ou pelo efeito que se espera que causem no Ser adorado.”

(Martins Fontes, 2007) pág. 38

25 junho 2018

Contemplação amorosa de Deus

A meta da oração monástica, da salmodia: oratio, meditatio, no sentido da oração do coração, – e mesmo da lectio, – é preparar o caminho de modo que a ação de Deus possa desenvolver essa “capacidade para o sobrenatural”, para a iluminação interior pela fé e pela luz da sabedoria, na contemplação amorosa de Deus.

(Agir, 1972) pág.73

18 junho 2018

A Oração do Coração

... nos introduz no profundo silêncio interior, de maneira que aprendemos a experimentar seu poder. Por esse motivo, a oração do coração deve ser sempre muito simples, limitando-se aos atos mais simples e frequentemente não empregando nem palavras nem pensamentos.


(Agir, 1972) pág. 69

11 junho 2018

Quais as nossas prioridades?

“Ora, basicamente, alguém que está obcecado pela sua própria unidade interior deixa de se conscientizar de sua desunião com Deus e com os outros. Pois é na união com os outros que nossa própria união interior se estabelece natural e facilmente. Estar preocupado em conseguir a unidade interior em primeiro lugar e, em seguida, amar os outros é seguir uma lógica de ruptura contrária à vida.”

(Vozes, 1970) pág. 242

05 junho 2018

O que há de mais básico na existência humana?

“Em todas as grandes tradições religiosas homens e mulheres dedicaram-se à vida contemplativa. E assim, em condições especiais de silêncio, austeridade, solidão, meditação e culto, conseguiram aprofundar e ampliar sua percepção espiritual. Desta forma conseguiram explorar áreas da experiência que, apesar de fora do comum, têm implicações profundas sobre a vida que em geral levam os homens, seus irmãos. Quer seja do ponto de vista da psicologia, da ética, da arte, da religião, ou simplesmente no desenvolvimento das mais profundas capacidades do homem, a experiência contemplativa está ligada ao que há de mais básico na existência humana.”

(Vozes, 1975) pág. 163

28 maio 2018

Oração: conceitos fundamentais

“Estamos em face de uma opção entre dois conceitos que, embora possam, talvez, ser conciliáveis, são considerados opostos. Uma ideia ativa da oração: acompanha o trabalho e o santifica. O outro, um conceito contemplativo de oração: para penetrar mais profundamente no mistério de Deus, é preciso ‘repousar sem ação exterior e unir-se unicamente ao desejo do Criador’”.
(Agir, 1972) pág. 84

21 maio 2018

O sentido da Vida Contemplativa

"O começo do amor é a verdade, e antes de nos conceder seu amor, Deus precisa purificar nossa alma das mentiras que estão dentro dela. E a maneira mais eficaz de nos desprendermos de nós mesmos é fazer com que nos detestemos pelo que nos tornamos pelo pecado, para que possamos amá-lo refletido em nossas almas que ele refez por seu amor.
 

Este é o sentido da vida contemplativa e o sentido de todas as regras, observâncias, jejuns, obediências, penitências, humilhações e trabalho aparentemente sem significado que constituem a rotina da existência num mosteiro contemplativo. Tudo isso serve para nos lembrar o que somos e quem Deus é... de modo a ficarmos nauseados de nós mesmos e nos voltarmos para ele. E, ao final, encontramos Deus em nós, em nossas naturezas purificadas que se tornaram o espelho de sua grandiosa divindade e de seu amor eterno..."

(Vozes, 2005) pág. 337

14 maio 2018

Tranquilo cume

14 de maio de 1947 – Vigília da Ascensão

(...) Amanhã é o dia da Ascensão, minha festa favorita. Em qualquer época do ano, surpreendo-me a ouvir as antífonas da Ascensão cantando em meus ouvidos, enchendo-me de luz e paz. Vado parare vobis locum¹. É a festa do silêncio e da solidão interior, quando subimos ao céu com Jesus: pois Ele nos transporta ao céu após haver vivido um pouco entre nós, na terra. Esta é a graça do dia da Ascensão: sermos levados para o céu de nossas próprias almas, o apex mentis, o ponto de imediato contato com Deus. Descansar nesse tranquilo cume, nas trevas que cercam Deus. Viver ali, através de todas as provações e de toda agitação, com o Tranquillus Deus tranquillans omnia². Que Deus esteja comigo neste dia e para sempre.


1. “Vou, para preparar-vos um lugar”.
2. “O Deus tranquilo que faz tranquilas todas as coisas”. (São Bernardo)


(Mérito, 1954) pág. 60

07 maio 2018

Desejos, preocupações e apegos

Jamais encontraremos a solidão interior se não fizermos um esforço consciente para nos libertar dos desejos, preocupações e apegos de uma existência no tempo e no mundo.

Novas Sementes de Contemplação
(Vozes, 2017) pág. 87

23 abril 2018

União com o Pai

“As obras do Filho decorrem de sua inefável união com o Pai, são sua expressão viva e vivo testemunho. ‘Se não faço as obras do meu Pai, não me creiais. Mas se as faço, mesmo que não me quisésseis crer, credes em minhas obras, a fim de que saibais e conheçais que o Pai está em mim e que estou no Pai’ (Jo 10,37-38).”

(Vozes, 1959) pág. 24

16 abril 2018

Crescer no conhecimento e no amor

“Se amamos o Santíssimo Sacramento e se nos comprazemos em passar o nosso tempo na adoração desse formidável mistério de amor, não podemos deixar de procurar aprofundar cada vez mais a caridade de Cristo. Não podemos tampouco deixar de chegar a um conhecimento íntimo e pessoal de Jesus oculto sob os véus sacramentais. Entretanto, à medida que crescemos no conhecimento e no amor dele, necessariamente aumentará o nosso conhecimento do amor que Ele tem por nós. Chegamos a compreender cada vez melhor com que seriedade Jesus quer que tomemos o seu ‘mandamento novo’ de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou.”

(Vozes, 1963) pág. 162

09 abril 2018

Ressurreição e o mistério da cruz

A ressurreição de Cristo é, portanto, o coração da fé cristã. Sem ela, a morte de Jesus na cruz não passa de uma tragédia do homem honesto – a morte de um Sócrates judeu. Sem a ressurreição, o ensinamento de Jesus é simplesmente uma coleção de fragmentos incoerentes, com uma vaga referência moral. Os Evangelhos perdem o principal do seu sentido.
(…)
Quem pretende penetrar no coração do cristianismo e aí beber das águas vivas que trazem alegria à cidade de Deus (cf. Sl 45,5), deve entrar nesse mistério. E o mistério da ressurreição é simplesmente a consumação do mistério da cruz.


(Verus, 2003) pág. 160 e 161


02 abril 2018

Merton no Brasil?

Qual não foi nossa alegria ao recebermos, em março de 1968, numa carta em que mais uma vez indicava o dia em que celebraria a missa por nós e por todos os seus amigos brasileiros, esta boa notícia: “É possível que, com a autorização de nosso novo jovem Abade, eu possa visitar o Brasil… Mas se isso puder ser feito de maneira muito discreta, sem publicidade e sem que eu tenha que falar em público, etc. É possível que eu possa viajar para visitar comunidades e encontrar-me com pessoas, sem no entanto envolver-me em nada de público. Isso depende, porém, de muitas outras coisas. Reze por essas intenções”.

Ir. Maria Emmanuel de Souza e Silva, OSB
(Vozes, 2003) pág. 56

26 março 2018

Semana Santa

(...) o mistério da Páscoa não é celebrado apenas na Páscoa, mas todos os dias do ano, porque a Missa é o mistério Pascal. O Tempo da Paixão, a Semana Santa, a Páscoa e os “cinquenta dias santificados” do ciclo pascal culminando na celebração de Pentecostes concorreram para desdobrar os Mistério Pascal diante de nós no tempo, em todos os seus pormenores. Todavia, a plenitude da Sexta-feira Santa, Páscoa e Pentecostes também se condensa no ritmo da Missa cotidiana. Pois, todas as vezes que participamos dos Sagrados Mistérios, a Pascha Domini (a Passagem do Senhor), morremos com Cristo, com Ele ressuscitamos e d’Ele recebemos o Espírito da Promessa que nos transforma e nos une ao Pai, no Filho e através d’Ele.

(Vozes, 1968) pág. 147 e 148

12 março 2018

Uma Palavra transformadora

“A Palavra de Deus é, portanto, capaz de dar provas de autenticidade pelo seu poder transformador que opera uma invasão de amor, unidade, paz, compreensão mútua e liberdade, onde havia antes preconceito, conflito, ódio, divisão e ganância.”

(Vega, 1975) pág. 11

05 março 2018

Perdoar de coração

“Alguns são apenas virtuosos o suficiente para esquecer que são pecadores sem se sentirem infelizes o suficiente para lembrar quanto necessitam da misericórdia de Deus”

(Verus, 2003) pág. 179

26 fevereiro 2018

Quem se exalta será humilhado...

“As pessoas que tentam orar e meditar acima do seu próprio nível, que se mostram demasiadamente desejosas de alcançar o que creem ser ‘um elevado grau de oração’, afastam-se da verdade e da realidade. Ao observarem-se a si próprias e ao tentarem convencer-se de seus progressos, tornam-se prisioneiras de si mesmas. Quando então percebem que a graça delas se afasta, permanecem presas em seu próprio vazio, na inutilidade de seus esforços e ficam desamparadas. A acedia substitui o entusiasmo do orgulho e da vaidade espiritual. Um longo tirocínio no caminho da humildade e da compunção, eis o remédio!”

(Agir, 1972)  pág. 62

19 fevereiro 2018

A noite dos sentidos

“A vida de contemplação infusa nem sempre começa com uma experiência nítida de Deus numa luz forte, penetrante. (...) Não é muito difícil reconhecer esses repentinos e intensos lampejos de compreensão, esses vívidos ‘raios de escuridão’ que penetram profundamente na alma e mudam todo o rumo de uma vida.

Mas se fosse preciso esperar uma dessas experiências vívidas antes de se tornar contemplativo, talvez fosse necessário esperar muito tempo – quem sabe a vida inteira. E essa espera talvez fosse em vão.”


 (Vozes, 2017) pág. 215

12 fevereiro 2018

Esvaziando a vontade

“É verdade termos de tratar com Deus, a maior parte do tempo, como se fora Ele um ‘objeto’, isto é, considerando-O por conceitos que O apresentam a nós objetivamente. No entanto, como todos sabem, só conseguimos conhecer realmente a Deus quando O encontramos, ‘pelo amor’, escondido ‘em nós’, isto é, ‘por conaturalidade’. Todavia, paradoxalmente, não podemos achar a Deus ‘dentro de nós mesmos’ se não ‘saímos de nós mesmos’ pelo sacrifício. Só um amor sacrifical que nos torne capazes de nos largarmos a nós mesmos inteiramente, esvaziando-nos de nossa própria vontade, pode habilitar-nos a encontrar o Cristo no lugar ocupado anteriormente pelo nosso próprio ‘eu’.”

(Agir, 1963) pág. 122

05 fevereiro 2018

Nada te pertube

"A última coisa no mundo que deveria preocupar um cristão ou a Igreja é a sobrevivência num sentido temporal e mundano. Preocupar-se com isso é uma negação implícita da vitória de Cristo e da Ressurreição"

(Vozes, 1970) pág. 145

29 janeiro 2018

Saber discernir

“A tarefa da razão, iluminada pela graça e aperfeiçoada pelas virtudes infusas, é assegurar a clara distinção entre a tentação e a luz da graça, entre força da emoção e o instinto de amor sobrenatural, entre as fantasias da imaginação e as luzes do Espírito Santo.”

(Itatiaia, 1999) pág. 135

22 janeiro 2018

Uma questão íntima

“O profundo mistério do meu ser frequentemente me é oculto pelo conceito que faço de mim mesmo. A ideia que faço de mim mesmo é falsificada pela admiração que tenho por meus atos. E as ilusões que acalento a meu respeito são produzidas pelo contágio das ilusões de outros homens. Cada qual procura imitar a imaginária grandeza do outro.”

(Verus, 2003) pág. 115

17 janeiro 2018

As sementes aladas

Cada momento e cada acontecimento na vida de cada homem na terra planta algo em sua alma. Pois, assim como o vento leva milhares de sementes aladas, assim também cada instante traz consigo germes de vitalidade espiritual que vão pousar imperceptivelmente no espírito e na vontade dos homens. A maioria dessas inumeráveis sementes perece e se perde porque os homens não estão preparados para recebê-las: sementes como essas só podem germinar na terra da liberdade, da espontaneidade, do amor.
 
Essa ideia não é nova. Na Parábola do Semeador, Cristo nos disse há séculos que “a semente é a Palavra de Deus”. Muitas vezes pensamos que isso só se aplica à palavra do Evangelho formalmente pregada nas igrejas aos domingos (se é que ainda é pregada nas igrejas!). Mas toda a expressão da vontade de Deus é, em certo sentido, uma “palavra” de Deus e, portanto, uma “semente” de vida nova.

 

Novas Sementes de Contemplação
(Vozes, 2017) pág. 29

08 janeiro 2018

Tão secreto quanto Deus

"O eu interior é tão secreto quanto Deus e, como Ele, escapa a todo conceito que pretenda captá-lo completa e totalmente; é uma vida que não pode ser tomada e estudada como um objeto, porque não é 'uma coisa'. Não se pode alcançá-lo, nem persuadi-lo a se manifestar por nenhum processo natural, mesmo a meditação. Tudo que podemos fazer, por meio de qualquer disciplina espiritual, é produzir em nós mesmos algo de silêncio, de humildade, de desapego, de pureza de coração e impassibilidade, que são elementos necessários para que o eu interior nos dê uma tímida e imprevisível manifestação de sua presença."

(Martins Fontes, 2007) pág. 12

01 janeiro 2018

Propósito para um novo ano

"Agradamos a Deus não por nossos sentimentos de fervor, e sim pelo sacrifício de nossa vontade própria. Não são nossas palavras doces que Ele quer, mas o nosso amor, em atos e em verdade."
O que são estas chagas? 
(Ecclesiae, 2017) p. 94