19 setembro 2016

A lâmpada que deve brilhar

“Eu tinha certo receio de todas as regras religiosas como um todo, e este novo passo para o mosteiro não era algo que eu daria apressadamente. Ao contrário, minha mente estava cheia de dúvidas sobre o jejum, a clausura, as longas orações, a vida comunitária, a obediência monástica, a pobreza, etc. E havia muitos fantasmas estranhos dançando nas portas da minha imaginação, todos prontos a entrar, se eu o permitisse. Caso o permitisse, eles me mostrariam como ficaria demente no mosteiro, como minha saúde se abalaria e meu coração baquearia; eu entraria em colapso, seria reduzido a frangalhos e voltaria ao mundo qual destroço moral e físico, sem qualquer esperança. (...)
Tão logo comecei a jejuar, a recusar a mim mesmo certos prazeres e a dedicar tempo à oração, à meditação e aos outros exercícios que fazem parte da vida religiosa, descobri que superava rapidamente minha má saúde, tornava-me saudável, forte e imensamente feliz.”
A montanha dossete patamares, Thomas Merton (Ed. Vozes), 2ª Ed. 2010, pág. 237-238

12 setembro 2016

No limiar do desespero

“Como Deus está próximo de nós, quando, reconhecendo e aceitando a nossa abnegação, lançamos inteiramente em suas mãos os nossos cuidados! Contra toda a expectativa humana, Ele nos sustenta quando é preciso, ajudando-nos a fazer o que parecia impossível. Aprendemos, então, a conhecê-Lo não nessa ‘presença’ que se acha em abstratas considerações (...) mas no vazio de uma esperança que pode chegar ao limiar do desespero. (...) A esperança está sempre prestes a converter-se em desespero, mas sem nunca chegar, porque, no instante supremo da crise, o poder de Deus se perfaz, de repente, em nossa fraqueza.”
Homem algum é uma ilha, Thomas Merton, (Ed. Agir) 5ª Edição, 1968, pág. 172

05 setembro 2016

Humildade, fé e caridade

“O sentido todo da vida consiste em espiritualizar nossas atividades pela humildade e a fé, e em silenciar nossa natureza pela caridade.”
Na Liberdade da Solidão, Thomas Merton (Ed. Vozes), 7ª Ed. 2001, pág. 90

29 agosto 2016

A completar o trabalho

“A contemplação (...) é um dom religioso e transcendente. Não é algo que possamos atingir sozinhos pelo esforço intelectual e o aperfeiçoamento de nossas potências naturais. Não é uma espécie de auto hipnose, resultando da concentração, sobre o nosso próprio ser íntimo, espiritual. Não é fruto de nosso próprio esforço. É dom de Deus que, em sua misericórdia, completa o trabalho oculto e misterioso da criação em nós, iluminando nosso espírito e nosso coração, despertando em nós a consciência de que somos palavras proferidas em sua Única Palavra, e que o seu Espírito Criador (Creator Spiritus) habita em nós e nós Nele. (...) A contemplação é mais do que mera consideração de verdades abstratas sobre Deus. É um despertar, uma apreensão intuitiva com que o amor se certifica da intervenção criadora e dinâmica de Deus em nossa vida cotidiana.”
Novas Sementes de Contemplação, Thomas Merton (Ed. Fisus), 1999, pág. 12

22 agosto 2016

Alegra-te, cheia de graça...

A Anunciação - por Fra Angélico 
“Tardinha. O sossego da tarde está repleto de uma tonalidade bem diferente. O sol fez seu percurso e o quarto está mais escuro. Momento sério. A hora está mais saturada. Faço uma pausa para rezar e olho a imagem da Anunciação, por Fra Angélico, num cartão postal, em clima de fim do Advento que hoje é. Ecce completa sunt omnia quae dicta sunt per angelum de Virgine Maria. Veja, são cumpridas todas as coisas sobre as quais o anjo falara à Virgem Maria – isso foi a antífona após o Benedictus nesta manhã. Durante mais ou menos oito minutos fiquei em silêncio e imóvel e escutava meu relógio e me perguntei se talvez eu pudesse entender algo da obra que Nossa Senhora está preparando. A hora é de uma tremenda expectativa.”
Diálogos com o silêncio – Orações & Desenhos, Thomas Merton
Editado por Jonathan Montaldo – Traduzido por René Bucks (Ed. Fisus), 2003, pág. 145