Reflexões de Thomas Merton

Uma coletânea de breves textos garimpados semanalmente nos escritos de Merton. Revestidos de sinceridade e envolvente poesia, convidam o leitor a meditar sobre verdades duradouras!

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Nome: SafTM
Local: Rio de Janeiro, Brazil

A Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton visa a despertar o interesse pela pessoa, vida e obra desse monge que inspira em muitos a busca da vida contemplativa. Diz ele que a contemplação é "a mais alta expressão de vida intelectual e espiritual do homem" e um fator de renovação de um mundo onde vigore a paz e a justiça.

19 Maio 2008

Confronto entre o mundo e Cristo?

“ Persiste uma profunda sabedoria na abordagem cristã tradicional do mundo como objeto de escolha. Mas temos de admitir que as compulsões habituais e mecânicas de certo tipo limitado de pensamento cristão falsificaram a verdadeira perspectiva de valores em que o mundo pode ser descoberto e escolhido tal como é. Tratar o mundo apenas como uma aglomeração de bens e objetos materiais externos a nós, e rejeitar esses bens e objetos no intuito de buscar outros que sejam ‘interiores’ e ‘espirituais’ é, na verdade, deixar escapar todo o sentido do desafio que é o confronto entre o mundo e Cristo. Escolhemos mesmo entre o mundo e Cristo, como entre duas realidades conflitantes, absolutamente opostas? Ou optamos por Cristo escolhendo o mundo tal como é nele, isto é, criado e redimido por Ele e encontrado no alicerce da nossa loiberdade pessoal e o do nosso amor?”

Contemplation in a World of Action, de Thomas Merton
(Doubleday & Co., Garden City, NY), 1973. p. 170-171
No Brasil: Contemplação num mundo de ação, (Editora Vozes, Petrópolis), 1975. p. 154
Reflexão da semana de 19-05-2008

Um pensamento para reflexão: “O mundo não pode ser um problema para alguém que vê como, afinal, Cristo, o mundo, sua irmã, seu irmão e seu próprio e mais íntimo alicerce tornam-se uma unidade na graça e no amor redentor. Se toda a conversa atual sobre o mundo ajudar as pessoas a descobrirem esta realidade, muito bem. Mas se não gerar mais do que um novo divisor de água de posições obrigatórias e ‘respostas contemporâneas’, seria melhor esquece-las.”
Contemplação num mundo de ação, Thomas Merton

Contemplação num mundo de ação

Doze Reflexões deste livro foram publicadas no blog até esta data. Clique nos títulos!
A disciplina que conduz ao amor
A função da disciplina
Confronto entre o mundo e Cristo?
Disciplina e consciência crítica
Escolher o mundo
Mais brilhante do que a prata

O mundo e o íntimo do nosso ser
Optar pelo mundo

Oração: liberdade brotando do nada
Poder e alienação
Respostas obrigatórias
Uma nova auto-descoberta

(Clique nos títulos acima para ler os textos. Clique em Home, no fim de cada texto, ou no ícone Voltar do seu navegador, para voltar a esta página.)

12 Maio 2008

O mundo e o íntimo de nosso ser

“ A maneira de encontrar o verdadeiro ‘mundo’ não está em apenas observar e medir o que se acha fora de nós, mas sim em descobrir o íntimo de nosso ser. Pois é aí que se encontra o mundo em primeiro lugar: no meu mais profundo eu. Mas acontece que descubro ali que o mundo é bem diferente das ‘respostas obrigatórias’. Esse ‘terreno’, esse ‘mundo’ onde estou misteriosamente presente ao mesmo tempo ao meu próprio eu e às liberdades de todos os homens, não é uma estrutura visível, objetiva e determinada com leis e exigências fixas . É um mistério vivo que cria a si mesmo do qual eu mesmo sou uma parte, e para o qual sou a única porta de acesso. Quando encontro o mundo no meu próprio terreno, é impossível ser alienado por ele. São precisamente as respostas obrigatórias que insistem em mostrar o mundo como totalmente outro que eu e meu próximo, que me alienam de mim mesmo e do meu próximo. Assim, não vejo razão para nossa compulsão de fabricar conjuntos cada vez mais novos e reluzentes de respostas obrigatórias.”

Contemplation in a World of Action, de Thomas Merton
(Doubleday & Co., Garden City, NY), 1973. p. 170
No Brasil: Contemplação num mundo de ação, (Editora Vozes, Petrópolis), 1975. p. 154

Reflexão da semana de 12-05-2008

Um pensamento para reflexão: “As verdadeiras soluções não são as que aplicamos à força à vida conforme nossas teorias, mas as que a própria vida fornece aos que se dispõem a acolher a verdade. Por conseguinte, cabe-nos dissociar-nos de todos os que têm teorias que prometem soluções nítidas e infalíveis, e desconfiar de todas essas teorias, não com um espírito negativista e derrotista, e sim confiando na própria vida, na natureza, e, permitam-me dizer, em Deus acima de tudo.”
Raids on the Unspeakable, Thomas Merton

05 Maio 2008

Integração ao mistério de Cristo

“ Só começamos a entender a importância concreta não apenas de nossos sucessos, mas também dos fracassos e acidentes de nossas vidas quando nos vemos em nosso verdadeiro contexto humano, como membros de uma espécie destinada a ser um organismo e ‘um corpo’. Meus sucessos não são meus próprios. O caminho que levou a eles foi preparado por outros. O fruto de meus esforços não é meu próprio: estou preparando o caminho para as realizações de outro. Meus fracassos também não são meus próprios. Podem provir da falha de outro, mas também são compensados pela realização de outro. Portanto, o significado da minha vida não deve ser procurado apenas na soma totais de minhas realizações. Só é visto na completa integração de minhas realizações e falhas às realizações e falhas de minha própria geração e sociedade e tempo. É visto, acima de tudo, em minha integração ao mistério de Cristo.”

No Man is an Island, de Thomas Merton
(Harcourt Brace Jovanovich, Publishers, New York), 1955. p. 16
No Brasil: Homem algum é uma ilha, (Verus Editora, Campinas), 2003. p. 17

Reflexão da semana de 05-05-2008

Um pensamento para reflexão: “Na verdade, o mundo não tem termos próprios. Não dita termos ao homem. Nós e nosso mundo nos interpenetramos. Se podemos dizer alguma coisa, é que o mundo existe para nós, e nós existimos para nós mesmos. Só assumindo pela responsabilidade por nosso mundo, por nossas vidas e por nós mesmos podemos dizer que vivemos realmente para Deus.”
Homem algum é uma ilha, Thomas Merton

Homem algum é uma ilha

Este livro junto com o "Novas sementes de contemplação" são considerados os dois mais importantes livros de espiritualidade de Merton e portanto são habitualmente incluídos como os favoritos dos seus leitores. De certa forma, como o próprio Merton explica no prefácio de "Novas sementes...", o livro é em boa medida uma continuação do "Homem algum é uma ilha"

Já foram publicadas 17 Reflexões no blog:

A ilusão do barulho
A paz consigo mesmo
A vida é imperfeita
Admiração por meus atos
Atividade e descanso
Deus em nós
Em silêncio, com Deus
Esperança e caridade
Essa única coisa necessária
Integração ao mistério de Cristo
Na serenidade do nosso próprio ser

O sentido real da vontade de Deus
Secretos poderes

Seguindo nossa vocação
Um só corpo
Uma sabedoria diferente
Viver em um verdadeiro contexto humano

28 Abril 2008

Escolher o mundo

“ Eu não tive escolha em relação à época em que viveria, mas posso, contudo, escolher minha atitude, bem como a maneira e a proporção como vou participar dos acontecimentos vivos que nela se desenrolam. Escolher o mundo não é, portanto, apenas a admissão piedosa de que o mundo é aceitável porque vem das mãos de Deus. Trata-se, em primeiro lugar, da aceitação de uma tarefa e de uma vocação no mundo, na história e no tempo. No meu tempo, que é o presente. Escolher o mundo é escolher fazer o trabalho de que sou capaz, em colaboração com meu irmão e minha irmã, para tornar o mundo melhor, mais livre, mais justo, mais habitável, mais humano. E agora se tornou totalmente óbvio que a mera "rejeição automática do mundo" e "desprezo pelo mundo" não é, na verdade, uma escolha, mas uma fuga da escolha. A pessoa que pretende poder dar as costas a Auschwitz ou ao Vietnã e age como se eles não existissem, está simplesmente blefando.”

Contemplation in a World of Action, de Thomas Merton
(Doubleday & Co., Garden City, NY), 1973. p. 164 - 165
No Brasil: Contemplação num mundo de ação, (Editora Vozes, Petrópolis), 1975. p. 149
Reflexão da semana de 28-04-2008

Um pensamento para reflexão
: “O grande problema do nosso tempo não é formular respostas claras para questões teóricas bem definidas, mas enfrentar a alienação auto-destrutiva do homem em uma sociedade dedicada, em tese, a valores humanos e, na prática, à busca do poder pelo poder.”
Contemplação num mundo de ação, Thomas Merton

21 Abril 2008

Incêndio na floresta

“ Cada vez aprecio mais a beleza e a solenidade do ‘Caminho’ que sobe por entre os bosques, passa pelo estábulo do touro, galga a encosta pedregosa, entra no meio dos altos e eretos carvalhos e nogueiras e, dando a volta pelos pinheiros no alto da colina, chega até o chalé.

Nascer do sol. Oculto por pinheiros e cedros no lado leste da casa. Vi a chama vermelha de seu resplendor através dos cedros não como a alvorada, mas como um incêndio na floresta. Da janela do cômodo da frente, ele, o Sol (é difícil deixar de imaginá-lo como um ‘ele’), brilhou em silêncio com solene força através dos galhos de pinheiro.

Agora, após a Missa Solene, todo o vale está glorioso com a luz matinal e o canto dos pássaros.

É essencial vivenciar todos os tempos e estados de ânimo deste lugar.
Ninguém saberá ou conseguirá dizer quão essencial. Quase o primeiro e mais importante elemento de uma vida verdadeiramente espiritual, perdida na rotina constante e formal dos Ofícios Divinos sob as lâmpadas fluorescentes do coro – praticamente sem diferença entre noite e dia.”

Turning Toward the World
, de Thomas Merton
Editado por Victor A. Kramer
(HarperSanFrancisco, São Francisco) 1997, p. 122
Reflexão da semana de 21-04-2008

Um pensamento para reflexão
: “Muitos, sem dúvida, têm uma vaga consciência da alvorada, mas estão protegidos contra sua solenidade pelo culto neutralizador de sua própria sociedade, de seu próprio mundo no qual o sol já não nasce nem se põe.”
Turning Toward the World, Thomas Merton

14 Abril 2008

Poder e misericórdia

“ O mistério do Bom Samaritano é, portanto, o mistério de chesed: poder e misericórdia. Afinal, é o próprio Cristo que jaz ferido à beira da estrada. É Cristo que vem na pessoa do samaritano. E Cristo é o laço, a compaixão e a compreensão entre os dois. Assim é que a Igreja é construída de pedras vivas, unidas pela misericórdia. Ali onde existe, de um lado, um desamparado ferido e meio morto, e, do outro, um rejeitado sem prestígio, e um se inclina com piedade para ajudar o outro, opera-se uma epifania divina, um despertar. Aí há homem, aí a realidade se torna humana e, em resposta a esse movimento de compaixão, surge, na terra, uma Presença, e a brilhante nuvem da majestade de Deus cobre a pobreza e o amor de ambos. Pode não haver consolação nisso. Pode não haver nada de humanamente encantador. Não é necessariamente como no cinema. Talvez, exteriormente, o encontro seja sórdido e nada atraente. Mas a Presença de Deus na Terra aí se realiza, Cristo está ali e Deus está em comunhão com o homem.”

Seasons of Celebration, de Thomas Merton
(Farrar, Straus and Giroux, New York), 1965. p. 181-182
No Brasil: Tempo e Liturgia, (Editora Vozes, Petrópolis), 1968. p. 185-186

Reflexão da semana de 14-04-2008

Um pensamento para reflexão: “Chesed, misericórdia e poder, se manifesta visivelmente no chasid ou o santo. De fato, o santo é alguém cuja vida inteira está imersa na chesed de Deus. O santo é o instrumento da misericórdia divina. Através do chasid, o amor de Deus se estende no mundo, num mistério visível, um mistério de pobreza e amor, mansidão e poder.”
Tempo e Liturgia, Thomas Merton

13 Abril 2008

Tempo e liturgia

Vinte e duas Reflexões deste livro, Seasons of Celebration como seu título original, foram publicadas no blog até esta data. Clique nos títulos para ler:

A "chesed" de Deus
A finalidade do ascetismo cristão
A força que nos é dada
A lei de um amor misericordioso
Advento: esperança ou ilusão?

Através de outros
"Chesed" roubou-nos tudo
Cristo começa onde eu termino
Culto público e personalismo
Lançando fora o temor
O ascetismo cristão
O mistério do Natal
O paradoxo do personalismo cristão
O que dará o homem em troca de sua alma?

O toque de um sino de catedral
Os bens da vida e a vontade de Deus
Partilhando da vitória de Cristo

Poder e misericórdia
Procurar Deus em todas as coisas
Quaresma: nosso Outono Santo

Redenção
Tempo de cura

(Clique nos títulos acima para ler os textos. Clique em Home, no fim de cada texto, ou no ícone Voltar do seu navegador, para voltar a esta página.)

07 Abril 2008

O toque de um sino de catedral

“ A parábola do Bom Samaritano é uma revelação de Deus numa palavra que tem grande importância através de todas as Escrituras, do início ao fim. É uma revelação do que o profeta Oséias diz, falando pelo Deus invisível: ‘a misericórdia e não o sacrifício’. O que é essa misericórdia da qual se fala em toda parte nas Escrituras e especialmente nos Salmos? A Vulgata faz ouvir a palavra misericórdia como o toque profundo de um sino de catedral. Misericórdia é o burden* ou o ‘bourdon’, é o som baixo e em surdina de toda a Bíblia. Mas a palavra hebraica que traduzimos como misericórdia diz muito mais do que apenas misericórdia.

Chesed (misericórdia) é também fidelidade e fortaleza. É a misericórdia fiel e indefectível de Deus. É o fundamental, aquilo que não falha, porque é o poder que une uma pessoa a outra, numa aliança de vontades. É o poder que nos une a Deus, porque Ele nos prometeu a sua misericórdia e jamais falhará em sua promessa, porque Ele não pode falhar. É o poder e a misericórdia que mais o caracterizam, que mais se aproximam do mistério no qual penetramos quando todos os conceitos se obscurecem e nos escapam.”
* Burden (inglês) ou bourdon (francês) é em português bordão. Significa o som mais baixo em certos instrumentos; nome dado às cordas mais grossas de vários instrumentos. Em alemão Unterton.

Seasons of Celebration, de Thomas Merton
(Farrar, Straus and Giroux, New York), 1965. p. 175
No Brasil: Tempo e Liturgia, (Editora Vozes, Petrópolis), 1968. p. 179
Reflexão da semana de 07-04-2008

Um pensamento para reflexão: “Cada dia é uma nova aurora daquele lumen Christi, a luz de Cristo que não conhece o ocaso.”
Tempo e Liturgia, Thomas Merton