27 dezembro 2004

Fidelidade à graça

“ Fidelidade à graça em minha vida é fidelidade à simplicidade que rejeita a ambição, análise e pensamentos esmerados, ou até mesmo esmeradas preocupações.”

A Year with Thomas Merton, Daily Meditations from His Journals
Selecionado e editado por Jonathan Montaldo
(HarperSanFrancisco, A Division of HarperCollinsPublishers, New York), 2004, p. 1
Reflexão da semana de 27-12-2004

20 dezembro 2004

O mistério do Natal

O mistério do Natal, portanto, nos impõe uma dívida e uma obrigação para com os demais homens e para com todo o universo criado. Nós, que vimos a luz de Cristo, somos obrigados, pela grandeza da graça que nos foi dada, a tornar conhecida a presença do Salvador até os confins da terra. Isso faremos, não só pregando a boa-nova de sua vinda, mas, sobretudo, revelando-o em nossas vidas. Cristo nasceu hoje para nós, de maneira a poder manifestar-se ao mundo através de nós. Esse dia é o do seu nascimento, mas todos os dias de nossa vida mortal devem ser sua manifestação, sua divina Epifania no mundo que ele criou e redimiu.

Seasons of Celebration, de Thomas Merton
(Farrar, Straus and Giroux, New York), 1965. p. 112
No Brasil: Tempo e Liturgia, (Editora Vozes, Petrópolis), 1968. p. 115

Reflexões da semana de 20-12-2004

13 dezembro 2004

Temor da força de Deus

“ A fumaça branca subindo no vale, contra a luz, lentamente assumindo a forma de animais, contra o fundo escuro das colinas cobertas de bosques. Ameaçadoras e plácidas, vindas talvez de queimadas na mata, talvez de uma casa, provavelmente não de uma casa. Manhã fria e quieta, olho os carrapatos na escrivaninha. Nada produzo.

Talvez eu seja mais forte do que imagino. Talvez tenha medo da minha própria força e me volte contra mim mesmo para me enfraquecer. Talvez o que eu mais tema seja a força de Deus em mim.

Simplesmente é tempo de rezar com convicção pelas necessidades do mundo todo e se despreocupar de outras formas de ação aparentemente “mais eficazes”. Para mim, a oração vem primeiro, seguem-se as outras formas de ação, se é que há lugar para elas. E sem dúvida existe, de alguma forma.”

A Year with Thomas Merton, Daily Meditations from His Journals
Selecionado e editado por Jonathan Montaldo
(HarperSanFrancisco, A Division of HarperCollinsPublishers, New York), 2004, p. 370
Reflexão da semana de 13-12-2004

06 dezembro 2004

Carregar os fardos

“ Deve-se admitir, portanto, que, se o evangelho da paz não é mais convincente quando anunciado por cristãos, isso bem pode ser por eles terem deixado de dar um exemplo vivo de paz, unidade e amor. Na verdade, temos que compreender que a Igreja nunca pretendeu ser absolutamente perfeita na terra, e que ela é Igreja de pecadores, carregada de imperfeições. A paz cristã e a caridade cristã estão baseadas nessa necessidade de ‘carregar os fardos uns dos outros’, de aceitar as fraquezas que infestam a nossa e a vida dos outros. Nossa unidade é uma luta contra a desunião, e a nossa paz subsiste no meio do conflito.”

Peace in the Post-Christian Era, de Thomas Merton
Editado por Patricia A. Burton. Apresentação de Jim Forest.
(Orbis Books, Maryknoll, New York), 2004. p. 129
Reflexão da semana de 6-12-2004

29 novembro 2004

O secreto solo do Amor

“ A realidade que se apresenta a nós e está em nós: chame-a de o Ser, o Atman, o Pneuma ou (...) o Silêncio. E pelo simples fato de estar atentos, de aprender a ouvir (ou de recuperar a capacidade natural de ouvir, que, assim como a de respirar, não pode ser aprendida), podemos encontrar-nos mergulhados numa felicidade que não pode ser explicada: a felicidade de estar unidos a tudo nesse secreto solo do Amor para o qual não pode haver explicações.”

Carta a Amiya Chakravarty de 13 de abril de 1967 publicada em
The Hidden Ground of Love, de Thomas Merton
Editado por William H Shannon
(Farrar, Straus & Giroux, New York), 1985. p. 115
Reflexão da semana 29-11-2004

22 novembro 2004

Minha tarefa pessoal

“ Minha tarefa pessoal não é simplesmente a de poeta e escritor (menos ainda de comentador, pseudoprofeta): é basicamente louvar a Deus desde um centro interior de silêncio, gratidão e “consciência”. Isso pode ser atingido numa vida que aparentemente não realiza nada. Sem centrar-se em realização ou não-realização, minha tarefa é apenas o respirar dia a dia dessa gratidão, na simplicidade, e quanto ao resto lançar-me ao que der e vier, já que o trabalho é parte do louvor, seja rachando lenha ou escrevendo poemas, ou, melhor que tudo, simples notas.”
The Intimate Merton, editado por Jonathan Montaldo e Patrick Hart, OCSO
(HarperSanFrancisco, San Francisco, CA), 1999. p. 266
No Brasil: Merton na Intimidade (Editora Fissus, Rio de Janeiro), 2001. p. 304
Reflexão da semana de 22-11-2004

15 novembro 2004

Um só Espírito

“ A mensagem de esperança que o contemplativo lhe oferece é que, entenda ou não, Deus o ama, está presente em você, habita em você, o chama, salva-o e lhe oferece um entendimento e uma luz que você jamais encontrou em livros nem ouviu em sermões. O contemplativo nada tem a lhe dizer que não seja reafirmar e dizer que, se ousar penetrar seu próprio silêncio e arriscar dividir aquela solidão com outros solitários que buscam a Deus por seu intermédio, realmente recuperará a luz e a capacidade de entender o que está além das palavras e além das explicações, porque está próxima demais para ser explicada: é a união íntima, na profundeza de seu próprio coração, do espírito de Deus e do seu próprio eu particular, de forma que você e Ele são, em verdade, um só Espírito.”

Carta a Dom Francis Decroix de 21 de agosto de 1967 publicada em
The Hidden Ground of Love, de Thomas Merton
Editado por William H Shannon
(Farrar, Straus & Giroux, New York), 1985. p. 158
Reflexão da semana de 15-11-2004

08 novembro 2004

Uma peregrinação proveitosa

“ Hoje, nossa tarefa consiste em aprender que se podemos viajar até os confins do mundo para ali encontrar a nós mesmos no aborígine mais diferente, teremos realizado uma peregrinação proveitosa. Isso porque essa peregrinação é necessária, de uma forma ou de outra. Deixar-se ficar em casa sentado e meditando sobre a presença divina, não basta para os tempos atuais. Precisamos chegar ao fim de uma longa jornada e verificar que o estrangeiro que encontramos não é outro senão nós mesmos — o que é o mesmo que dizer que nele encontramos Cristo.”

Mystics and Zen Masters, de Thomas Merton
(Farrar, Straus & Giroux; New York), 1967. p. 112
No Brasil: Místicos e mestres Zen, (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro), 1972. p.116
Reflexões da semana de 8-11-2004

01 novembro 2004

Progresso e desintegração cultural

“ Não nos faz nenhum bem conseguirmos progressos fantásticos se não sabemos conviver com eles, se não sabemos utilizá-los sensatamente e se, em realidade, nossa tecnologia se transforma em nada mais do que um modo dispendioso e complicado de desintegração cultural. Não é “bonito” dizer tais coisas, reconhecer tais possibilidades. Mas são possibilidades e não são levadas em conta freqüentemente com inteligência. Causam emoção de vez em quando, e em seguida são varridas da memória. Todavia, permanece o fato de que criamos para nós uma cultura que ainda não pode ser vivida pela humanidade como um todo.”

Conjectures of a Guilty Bystander, de Thomas Merton
(Image Books, uma divisão da Doubleday & Co., Garden City, NY), 1968. p. 73
No Brasil: Reflexões de um espectador culpado, (Editora Vozes, Petrópolis), 1970. p. 83-84
Reflexões da semana de 1-11-2004

25 outubro 2004

Tão secreto quanto Deus

“ O eu interior é tão secreto quanto Deus e, como Ele, escapa a todo conceito que tente apoderar-se dele por completo. É uma vida que não pode ser pega e estudada como um objeto, porque não é “uma coisa”. Não é alcançada nem pode ser persuadida a deixar de se esconder, seja qual for o processo que exista sob o sol, inclusive a meditação. Tudo o que podemos fazer com qualquer disciplina espiritual é produzir dentro de nós um pouco de silêncio, humildade, desinteresse, pureza de coração e desapego que se fazem necessários para que o eu interior faça uma tímida e imprevisível manifestação de sua presença.”

The Inner Experience: Notes on Contemplation, de Thomas Merton.
Editado por William H. Shannon
(HarperSanFrancisco, a Division of HarperCollinsPublishers, New York), 2003. p. 7
Reflexão da semana de 25-10-2004

18 outubro 2004

Uma crise do espírito humano

“ Deve ficar claro dessa confusão moral e mental do nosso tempo que a atual crise mundial é algo muito pior que um conflito meramente político ou econômico. Vai muito mais além de ideologias. É uma crise do espírito humano. É uma convulsão completamente moral da raça humana que perdeu suas raízes religiosas e culturais. Não conhecemos de fato nem a metade das causas dessa convulsão. Não podemos fingir que compreendemos plenamente o que está acontecendo em nós e em nossa sociedade. É por isso que nossa fome de soluções claras e definitivas às vezes nos faz cair em tentação. Simplificamos demais. Procuramos a causa do mal e a encontramos aqui ou acolá numa determinada nação, classe, raça, ideologia, sistema. E descarregamos nesse bode expiatório toda a força virulenta do nosso ódio, misturado a medo e angústia, esforçando-nos em nos livrar do nosso pavor e de nossa culpa através da destruição do objeto que escolhemos arbitrariamente como personificação de todo mal. Ao invés de nos curar, isso se torna apenas mais um paroxismo que agrava nossa doença.”

Peace in the Post-Christian Era, de Thomas Merton
Editado por Patricia A. Burton. Apresentação de Jim Forest.
(Orbis Books, Maryknoll, New York), 2004. p. 127
Reflexão da semana de 18-10-2004

11 outubro 2004

Secretos poderes

“ Quando a sociedade humana cumpre a sua verdadeira missão, as pessoas que a formam crescem cada vez mais em liberdade individual e integridade pessoal. E quanto mais o indivíduo desenvolve e descobre os secretos poderes da sua incomunicável personalidade, tanto mais contribuirá para a vida e para o bem-estar do conjunto. A solidão é tão necessária à sociedade como o silêncio à linguagem, o ar aos pulmões e o alimento ao corpo.

Uma comunidade que tenta invadir ou destruir a solidão espiritual dos indivíduos que a compõem, condena-se à morte por asfixia espiritual.”

No Man is an Island, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace Jovanovich Inc., New York), 1983. p. 246-247
No Brasil: Homem algum é uma ilha, (Verus Editora, Campinas), 2003. p.208
Reflexão da semana de 11-10-2004

04 outubro 2004

Poder e alienação

“ Aquele que tenta agir e realizar coisas para os outros ou para o mundo, sem aprofundar a própria compreensão de si mesmo, sua liberdade, sua integridade e sua capacidade de amar, nada terá para dar aos outros. Comunicará aos outros nada mais do que o contágio de suas próprias obsessões, agressividade, ambições egocêntricas, de suas ilusões em relação a meios e fins, a ainda seus preconceitos e idéias doutrinárias. Não há nada de mais trágico no mundo moderno do que a má utilização do poder e da ação a que os homens são impelidos por suas próprias incompreensões e falsas interpretações faustianas. Temos mais poder ao nosso dispor hoje em dia do que jamais tivemos e, no entanto, vivemos mais alienados e afastados do próprio cerne do significado das coisas e do amor, do que nunca antes.”

Contemplation in a World of Action, de Thomas Merton
(Doubleday & Co., Garden City, NY), 1961. p. 164
No Brasil: Contemplação num mundo de ação, (Editora Vozes, Petrópolis), 1975. p. 162
Reflexões da semana de 4-10-2004

27 setembro 2004

Contemplação

“ A contemplação é também a resposta a um chamado. Um chamado daquele que não tem voz e no entanto se faz ouvir em tudo que existe, e que, sobretudo, fala nas profundezas de nosso próprio ser, pois nós somos palavras dele. Mas somos palavras que existem para responder a ele, atendê-lo, fazer-lhe eco e mesmo, de certo modo, para estarem repletas dele, contê-lo e significá-lo. A contemplação é esse eco. É uma profunda ressonância no mais íntimo centro de nosso espírito, onde nossa própria vida perde sua voz específica e ecoa a majestade e a misericórdia daquele que é oculto mas Vivo. (…) É um despertar, uma iluminação, e a apreensão intuitiva, espantosa, com que o amor se certifica da intervenção criadora e dinâmica de Deus em nossa vida cotidiana. A contemplação, portanto, não “encontra” simplesmente uma idéia clara sobre Deus, confinando-o dentro dos limites dessa idéia, retendo-o como um prisioneiro a quem se pode sempre voltar. Pelo contrário, a contemplação é que é por ele arrebatada e transportada ao próprio domínio dele, seu mistério, sua liberdade.
New Seeds of Contemplation, de Thomas Merton
(New Directions; New York), 1972. p. 1 e 5.
No Brasil: Novas sementes de contemplação, (Editora Fissus, Rio de Janeiro), 2001. p. 11 e 13
Reflexões da semana de 27-09-2004

20 setembro 2004

As sementes perdidas

“ Cada momento e cada acontecimento na vida do homem aqui na terra plantam em sua alma uma semente. Pois, assim como o vento leva milhares de sementes aladas, assim também cada instante traz consigo germes de vitalidade espiritual que vêm pousar imperceptivelmente no espírito e na vontade dos homens. A maior parte dessas inumeráveis sementes perecem e ficam perdidas, porque não estão os homens preparados para recebê-las. Pois sementes como essas não podem germinar a não ser na boa terra da liberdade, da espontaneidade, do amor.
(…)
Temos de aprender a reconhecer que o amor de Deus nos procura em cada situação e procura o nosso bem. Seu amor imperscrutável procura o momento do nosso despertar.”
New Seeds of Contemplation, de Thomas Merton
(New Directions, New York), 1972. p. 14 e 15
No Brasil: Novas sementes de contemplação (Editora Fissus, Rio de Janeiro). 2001. p. 23 e 24
Reflexão da semana de 20-09-2004

07 setembro 2004

Místicos e Mestres Zen



HOUVE UMA ÉPOCA, e não muito distante, na qual até mesmo as obras dos místicos cristãos eram encaradas com certo alarme nos mosteiros contemplativos católicos. A verdade é que os místicos não são compreendidos por todos. Como também é verdade que a aceitação de determinadas formas do misticismo oriental não é, necessariamente, um sinal de maior maturidade espiritual no Ocidente. No entanto, parece certo que se alguém devia mostrar-se inclinado e interessado pelas tradições orientais, essa atitude, devia caber aos monges contemplativos das ordens monástica ocidentais. E apesar das muitas e importantes divergências existentes entre as diversas tradições, todas têm muito em comum, inclusive alguns princípios básicos que situam o monge eu o adepto do Zen à parte daqueles que adotam modos de vida que são, cumpre-nos afirmar, agressivamente não-contemplativos.
(...)

Thomas Merton, prefácio de Místicos e Mestres Zen

Marta, Maria e Lázaro



"Lembremos, mais uma vez, que essa distinção teria parecido estranha a S. Bernardo, como aos outros Padres da Igreja. Vimos que S. Bernardo achava natural que houvesse vocações de vida ativa e de vida contemplativa no seio de um mesmo, mosteiro. De um modo geral, todos rezavam juntos atrás da mesma clausura, todos trabalhavam juntos e liam juntos no claustro. Suas ocupações exteriores eram, mais ou menos, as mesmas. E' verdade que o monge encarregado de uma função especial em relação com a vida exterior (officialis frater) tinha uma tarefa particular, como a de despenseiro, enfermeiro ou porteiro do convento. Mas vamos também ver que a vida ativa, num mosteiro, pode ser também uma atitude unicamente interior. Dois monges de pé, lado a lado no côro, cantando os mesmos salmos, ou então sentados juntos no claustro, ou trabalhando juntos no campo, fazendo, de manhã à noite, as mesmas coisas, poderão levar, cada qual, vida diferente, graças à diferença de suas disposições interiores. 

Para um será a vida contemplativa de Maria, para o outro, a vida ativa e penitente de Lázaro ou, se for encarregado de tarefas e cuidados matariam, a vida da laboriosa Marta.

É bem evidente que alguém não se torna um contemplativo só por viver num mosteiro. Quando S. Bernardo nos fala da vida contemplativa, entende por isso algo de muito mais profundo e real. Entende uma vida de união estreita com Deus pela oração mística: a vida de uma “Sponsa Verbi”, que é esposa não só porque esse é seu estado, mas também por escolha interior.

Todos os monges não são contemplativos. Alguns levam uma vida ativa, no sentido de que seu “espírito” é ativo, de uma atividade voltada para a penitência. Outros são ativos porque se ocupam de tarefas numerosas para o bem da comunidade. Outros, finalmente, são ativos no sentido apostólico: são sobretudo os superiores e aqueles cuja missão consiste em dirigir e formar outros monges. No pensamento de S. Bernardo, só os Abades parecem entrar nessa categoria."

Thomas Merton, páginas 16 e 17

Que são estas chagas?

Vida da mística cisterciense Lutgarda de Aywiéres “Estudando a vida de Santa Lutgarda, Thomas Merton nos dá, nete livro, bem traduzido pelas religiosas da Companhia da virgem, alguma coisa do muito que ainda há de nos dar com a graça de Deus, sobre a sua própria experiência da vida contemplativa. Uma vida, como a dele, mais do qualquer outra — e não há vida alguma, por mais obscura que seja, que não tenha um sentido na Comunhão dos Santos ou na Comunhão dos Anjos Decaídos — uma vida como a de Thomas Merton, representa, sem dúvida, uma intenção toda especial da Divina Providência. Nascer, no centro da civilização mais ativa do mundo moderno, um homem que venha dar o testemunho mais precioso da primazia da vida contemplativa e da sua conjunção natural como a vida ativa, no sentido autentico do termo, é realmente uma prova do que a Providência quer de nós outros, nesta vigília do século XXI.

A vida interior não está em contradição com a vida exterior. Mas é, por natureza, superior a ela, como a vida racional é superior à vida vegetativa, que de modo algum contradiz. A vida cristão, como a regra de S. Bento o diz na fórmula perene — Ora et Labora — é uma superação de ambos, na vida sobrenatural que deve impregnar toda a nossa existência natural.

O princípio dominante da nossa vida interior, podemos encontrá-lo naquela palavra com que Nosso Senhor respondeu à queixa de Marta: “Maria optimam partem elegit” (Lc 10,42). O princípio dominante da nossa vida exterior seria o daquela outra resposta do Mestre à capciosa objeção com que o queriam intrigar com o Imperador: “Reddite ergo quae sunt Caesaris Caesari et quae sunt Dei, Deo” (Mt 22, 21) São esses os dois fundamentos em que sempre quisera assentar as duas dimensões de nossa vida, para dentro de nós mesmos e para o mundo que nos cerca. E essas duas dimensões subordinadas à dimensão terceira e transcendental que harmoniza as duas, em nome da unidade que lhe dá sentido e fim: a união com Deus. 

Introdução de Alceu Amoroso Lima. Tradução das Religiosas da Companhia da Virgem

Zen e as aves de rapina

Onde jaz uma carcaça, aves de rapina voam em círculo e descem. A vida e a morte são duas coisas. Os vivos atacam os mortos, em proveito próprio. Os mortos nada perdem com isso. Ganham até, desaparecendo. Ou parecem ganhar, se é que devemos pensar em termos de perda e ganho. Será que abordamos o estudo do Zen com idéia de que existe algo a ganhar com isso? Essa pergunta não pretende ser acusação implícita. É, no entanto, uma pergunta séria. Onde se faz um espetáculo em torno de “espiritualidade”, “iluminação”, ou simplesmente de “ligar”, isso muitas vezes acontece porque abutres estão esvoaçando em redor de um cadáver. Esse voltear, esse vôo em círculo, esse descer, essa celebração de uma vitória não é o que significa o estudo do Zen (embora possa ser um exercício altamente útil noutros contextos e enriquece as aves de rapina).

O Zen a ninguém enriquece. Não há ninguém para ser encontrado. As aves podem vir e esvoaçar em círculo por algum tempo no lugar onde se pensa estar o Zen. Mas, bem depressa, deslocam-se para outras paragens. Quando já se foram, o “nada”, o “ninguém” que ali estava de repente aparece. Isto é o Zen. Ali estava o tempo todo, mas os abutres não o viram, pois não era seu tipo de presa.

(Nota do Autor)