23 outubro 2006

Oração e revolta

“ ‘Os santos’ — disse Bernanos [o conhecido autor do Diário de um pároco de aldeia] , ‘não são pessoas resignadas, pelo menos no sentido em que o mundo o acredita. Se sofrem em silêncio as injustiças que perturbam os medíocres, é de maneira a voltar contra a injustiça, contra sua face dura, toda a força de suas grandes almas. As cóleras, filhas do desespero, se insinuam e se debatem como vermes. A oração, afinal de contas, é a única forma de revolta que permanece de pé.’

Há nisso uma grande verdade sob todos os pontos de vista. Uma espiritualidade que prega a resignação em face de brutalidades ‘oficiais’, a anuência servil com frustração e esterilidade, a submissão total à injustiça organizada é uma espiritualidade que não mais se interessa pela santidade, mas se preocupa apenas com a noção espúria da ‘ordem’. Por outro lado, é tão fácil desperdiçar energia nos inúteis esforços daquela ‘cólera filha do desespero’, na recriminação vã que sente uma perversa alegria em culpar todos os demais quando fracassamos. Podemos certamente fracassar na realização daquilo que pensávamos ser a vontade de Deus para nós e para a Igreja. Mas simplesmente nos vingarmos com ressentimento contra os que nos atrapalharam não é voltar a força de nossa alma (se a temos) contra a ‘face dura da injustiça’. É outro modo de ceder a ela.

Pode haver um toque de estoicismo na linguagem de Bernanos aqui, porém não importa. Um pouco mais de força estóica não nos faria mal e não seria forçosamente um obstáculo à graça!”

Conjectures of a Guilty Bystander, de Thomas Merton
(Doubleday, New York), 1966. p. 165
No Brasil: Reflexões de um espectador culpado, (Editora Vozes, Petrópolis), 1970. p. 191
Reflexão da semana de 23-10-2006

Um pensamento para recordar: “A oração é a única forma de revolta que permanece de pé.”
Reflexões de um espectador culpado, de Thomas Merton

Um comentário:

Maria disse...

Há que abrir para o sopro, que recebem do Espírito, chegar aos sequiosos do Amor.Karl Rahner afirmou:o cristão do século XXI é mistico ou não é!Ora os monges podem dar uma poderosa achega.Obrigada por este blog.
Maria