15 dezembro 2014

Temor

"É só na presença de Deus que nos revelamos em toda a verdade. Porque é então que, vendo a Deus em sua própria luz, vinda da obscuridade da fé, também vemos, à mesma claridade, como somos diferentes do que pensamos ser em nossa ambição e vaidade.

Aqui o recolhimento colore-se de compunção e daquilo que os Padres chamam de “santo temor”. Temor é o conhecimento de nós mesmos em presença da santidade de Deus. É o conhecimento que temos de nós diante do seu amor, ao ver como estamos longe do que esse amor queria. Ele sabe quem é Deus e quem somos nós!

Mas um  temor “santo” não pode temer o amor. O que ele teme é a discrepância entre si e o amor, e corre a esconder-se no abismo de luz, que é o amor de Deus e a sua perfeição.

Esse temor é absolutamente necessário para que se preserve o nosso recolhimento  de degradar-se numa falsa doçura e presunção, que se supõe segura da graça, e cessa de temer a ilusão, comprazendo-se com o pensamento da sua virtude e alto grau de oração. Tal complacência cai imperceptivelmente, como uma cortina impenetrável, entre nós e Deus, que se vai, deixando conosco uma terrível ilusão."

Homem algum é uma ilha, Thomas Merton (Editora Agir), 1968, pág.186

Um comentário:

Antonio Milton Ito Soares disse...

Vejo o "temor de Deus" como tomar consciência da Presença dessa Realidade desconhecida perante a qual eu sou nada.
Mas, também perceber que trata-se de uma amorosa Presença, que nos criou e nos mantém e sustenta a cada respiração.
E ao reconhecer sua imensidão e generosidade, tocamos também a possibilidade de realizar o primeiro mandamento da Lei ensinado por Jesus: amar a Deus sobre todas as coisas.
Como é necessário esse "temor de Deus" em nosso tempo carente de sua Presença e, por isso mesmo, um tempo de idolatria.