Homilia da Missa do 20º aniversário da SAFTM

Dom Bernardo Bonowitz, OCSO
Abade do Mosteiro Trapista em Campo do Tenente, PR
Mosteiro da Virgem - Petrópolis/RJ, 10 de dezembro de 2016


Esta é a terceira vez que me encontro no Rio desde outubro. A primeira foi para o retiro anual da Sociedade em Sumaré, a segunda para uma semana de estudos da CIMBRA no mosteiro de São Bento e a terceira aqui no mosteiro da Virgem. Estou me sentindo meio carioca, embora o lado novaiorquinho continue reivindicando seus direitos.

Faço este breve histórico porque quero mencionar algo sobre a segunda visita, na qual vocês não participaram. Foi um curso ministrado pelo trapista australiano, Michael Casey, grande estudioso de nossa tradição (desde os inícios até o século 21) e redator principal de nossas constituições atuais. O tema do Padre Michael era “Monasticismo no Século 21” e nas suas palestras ele fez uma análise da situação atual e também delineou “pistas para um futuro de esperança e de luz”.

Fiquei impactado (agia como seu tradutor simultâneo durante o curso) pela atenção que deu a Merton, especialmente no que diz respeito às áreas que precisam de transformação e renovação. Apesar dos cinquenta anos entre a morte de Merton e este curso, a diferença cultural entre os dois escritores, e a grande originalidade de cada um (Michael Casey não é um homem para simplesmente repetir esquemas desenvolvidos por outros), formulação verbal à parte, a lista de áreas oferecida por Padre Michael quase coincidiu com a lista de Merton, desenvolvida nos anos 60.

Se por um lado não deve ser surpreendente um trapista citar outro, o que realmente me comoveu era a frequência, a gratidão e o amor com os quais o nome de Merton foi mencionado ao longo dos cinco dias do curso. No meu pequeno grupo de reflexão (haviam 5), uma monja beneditina atribuía a Merton não somente o primeiro impulso vocacional, mas também como ele tinha atuado com seu mestre espiritual durante muitos anos no seu convento. No plenário, as pessoas falavam de suas obras e da sua importância atual em sua caminhada espiritual. Uma beneditina de Goiás me disse que faria tudo para obter um exemplar do livro lançado no ano passado pela Sociedade, “Mertonianum 100”. E por fim, o monge responsável pela livraria do mosteiro se queixava amargamente da indisponibilidade da “Montanha dos Sete Patamares” e me exortava de exercer pressão sobre as editoras católicas. Um curso que em si não tinha nada a ver com Merton acabou sendo, por parte significativa, uma celebração de Merton.

Como explicar isto? Quais são os traços de Merton, monge, místico e escritor, que explicam a atração que exercia e continua a exercer. Deixem me citar alguns:

Primeiro: Embora muitos descrevam o gênero literário fundamental de Merton como sendo o de “autobiografia espiritual”, seria mais verdadeiro descrevê-lo como “diálogo espiritual”, uma mistura de direção espiritual e bate-papo espiritual. É impossível ler os livros de Merton sem sentir-se convidado para uma conversa com um raconteur charmoso e profundo. Ele era sempre muito consciente de seus leitores e queria interagir com eles – intelectualmente, espiritualmente e afetivamente. Poderíamos até dizer que seus leitores eram seus melhores amigos. Ele possuía o talento de formar genuínas relações pessoais só por sua palavra escrita.

Segundo: Sem dúvida alguma, Merton era não somente um monge católico, mas e sobretudo um cristão: alguém que encontrava em Jesus o significado da existência e o cumprimento de todos os seus desejos. Ao mesmo tempo (e cada vez mais), a visão contemplativa de Merton era larga, corajosa, arriscada (aberta a tomar riscos), curiosa. Intelectualmente onívoro, conseguia colocar todo o mundo no seu prato. A gente pensa na sua última palestra: “Contemplação e Marxismo”. Diz-se que não era um de seus melhores esforços, mas o importante é que ele estava disposto e desejoso de relacionar-se com todas as correntes de pensamento e descobrir insuspeitadas mas verdadeiras ligações. Faz muito bem ser interlocutor de um autor que não sente medo, cujos livros não apertam por sua estreiteza, cujo pensamento é muito arejado. Quantas pessoas, lendo-o devem exclamar: Posso respirar!

Terceiro: São Bento diz que finalmente a única condição exigida para ingressar no mosteiro e a de buscar verdadeiramente a Deus. De todos os aspectos de Merton, este é aquele de que não é possível duvidar. Seja ele se regozijando, se deprimindo, se queixando, se duvidando, brigando com seu abade Dom James, fazendo piadas com seus noviços – no centro se encontra sempre o desejo de Deus, o desejo de ser autenticamente e totalmente de Deus. É este seu ardor que nos arrasta – o vento de seu imenso desejo de Deus, desejo puro sem acréscimo de açúcar – que nos vincula inseparavelmente dele. No Cântico dos Cânticos, as donzelas dizem à Esposa: “Leva-me atrás de ti. Corramos!”. A esposa está correndo atraída pelos perfumes do Esposo. Ao lermos Merton, nós também dizemos, Leva-nos, tu que identificaste com teu olfato a pista de Cristo, de Deus. Corramos!”.

Ninguém é dono de Merton. Ele era livre demais para ter outro mestre do que o próprio Cristo. Mas adorava ter amigos e irmãos e é exatamente isto que vocês são, “amigos fraternos de Thomas Merton”. Também guardiões, também disseminadores, também estimuladores. Por causa dos trabalhos empreendidos com amor e generosidade por Irmã Emmanuel, por Waldecy Gonçalves, por Laert Alves Vieira, por Cristóvão Júnior, por Fernando Paiser e por muitos outros, Merton está se tornando de novo cada vez mais conhecido, estudado, compreendido, amado. Não é só Merton que celebramos hoje; é a sociedade cuja fundação ele inspirou. Nós reconhecemos a nossa grande dívida para com vocês. Esta missa, que por um lado é de infinito valor em si, também quer ser um pequeno gesto humano de nosso agradecimento.

Acho que não há melhor expressão dos frutos da sociedade do que um comentário da saudosa Mariana Barroso* no dia depois da primeira conferência da SAFTM em 1999: “Até ontem, o meu cardápio católico consistia de torradas secas e chá. Agora eu descobri que a espiritualidade católica é um banquete.”






 


*Mariana Barroso S. Camargo (in memoriam) foi uma grande colaboradora da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton. Uma das primeiras parceiras de Waldecy Gonçalves, atuou na revisão técnica dos livros A experiência interior, A sabedoria do deserto e Amor e vida, além de outras frentes de trabalho. Na foto, Mariana e Dom Bernardo Bonowitz após o café da manha do IX Retiro da SAFTM (set/2010).



Dom Bernardo Bonowitz, OCSO & Dom Filipe da Silva, OSB
 
No coro, as Monjas Beneditinas do Mosteiro da Virgem


Fernando Paiser, Coordenador Executivo da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton


 
Acolhida fraterna de Ir. Ana Maria, OSB aos dois Abades

2 comentários:

Washington Oliveira disse...

O comentário de Dona Mariana, sobre ter encontrado um vasto banquete de espiritualidade ao se deparar com a SAFTM e a obra de Thomas Merton, traduz a mais perfeita sensação que vivenciei quando em meu primeiro retiro, em janeiro de 2011. Nem chá com torradas eu tinha, eu estava comendo areia num deserto sem fé. Saudações amigos de Merton e irmãos em Cristo.

graciabragante disse...

Eu estaria lá no mosteiro. A minha amiga e orientadora espiritual, Irmã FAUSTINA, me fez o convite. Devido a problemas familiares não pude ir.
Agradeço, por terem compartilhado a homilia de d Bernardo e as fotos.
Saudade do mosteiro

Pax

Graça Bragante