13 fevereiro 2006

Meu coração diz sim

“ A heresia do individualismo: crer-se uma unidade inteiramente auto-suficiente e afirmar essa “unidade” imaginária contra todos os demais. Mas quando procuramos afirmar nossa unidade negando haver qualquer relação seja com quem for rejeitando a todos no universo até chegarmos a nós mesmos, o que resta para ser afirmado? Mesmo se houvesse algo para ser afirmado, não nos restaria mais fôlego para afirmá-lo.

O verdadeiro caminho é justamente o oposto: quanto mais sou capaz de afirmar os outros, de dizer-lhes “sim” em mim mesmo, descobrindo-os em mim e a mim mesmo neles, tanto mais real eu sou. Sou plenamente real se meu coração diz sim a todos.”

Conjectures of a Guilty Bystander, de Thomas Merton
(Doubleday, New York), 1966. p. 143-144

No Brasil: Reflexões de um espectador culpado, (Editora Vozes, Petrópolis), 1970. p. 166
Reflexão da semana de 13-02-2006

7 comentários:

O Velho da Montanha disse...

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pax et bonum!
Queridos amigos,

Nao me canso de afirmar, seja em que circulo de discurções eu esteja, que existe um homem sensivel às monções do Espirito e que sabe pô-las no papel: Thomas Merton. Dessa vez ele foi lá na raiz de um tema que há meses venho ruminando: o estar só! Tenho aprendido com Merton que se a minha solidão for uma mera segregação das demais pessoas, estarei condenado a um isolamento povoado de demonios. A solitude deve nos levar a um maior comprometimento com os nossos irmãos. Estando na solidão, diante de Deus-Trindade (o Amante, o Amado e o Amor), aprenderemos direto da fonte, a amar mais e melhor. Perfeitamente como foi dito por ele nesse postagem desta seman: É no dizer sim ao outro que vou me conhecendo, aparecendo aí o desapego, uma virtude rara nos nosso meio.
Vixe, acho que falei demais!
Valeu, Thomas, valeu por esse tesouro! Voce é o cara!

Cristovao Junior
www.merton.cjb.net

Darlon Carlos disse...

Na época em que estamos passando é sempro bom lembrar que podemos ser diferentes do que o sistema deseja. O sistema tenta nos mudar com roupas e modos diferentes, temendo, com isto, que venhamos a perceber que de fatos temos que mudá-lo. Não temos que ser individuais, mas sim coletivos em um Novo Homem.

Waldecy disse...

Merton faz uma vibrante manifestação pelo ecumenismo e pelo diálogo inter-religioso ao concluir o capítulo do livro de onde a Reflexão foi extraída.

Diz ele, ao final:

"Se eu me afirmo como católico simplesmente negando tudo que é muçulmano, judeu, protestante, hindu, budista, etc., no fim descobrirei que, em mim, não resta muita coisa com que me possa afirmar com católico: e certamente nenhum sopro do Espírito com o qual possa afirmá-lo."

Anônimo disse...

Unidade na essência pode ser gerada através da oração pela Humanidade, o que significa elo de identidade humana no Deus de Amor.
Unidade na existência pode ser congraçamento no tempo, no espaço e nas coordenadas da vida que abrangem nossas dimensões interiores e exteriores.
Ser "plenamente real se meu coração diz sim", poderia ter o significado da abrangência dessas duas unidades: essência e existência, na comunhão do Amor de Deus! Mas, é profundamente difícil de entender, assimilar com as atitudes, ser coerente e ter perseverança,se a pessoa é solitária. Esse individualismo creio que é mais uma solitude opcional... ( Às vezes não encontramos com quem falar, discutir, comentar esses assuntos tão relevantes para deixarmos de ser sós...)
Anônima SF

mauro disse...

Merton toca num ponto central da fé cristã. Somos capazes de dizer sim a todos? A todos, incondicionalmente? Ou dizemos sim apenas aos nossos eleitos? Dizer sim. É simples, mas difícil. Uma longa caminhada de aprendizado e amor.

Anônimo disse...

Anônima SF
É muito bom essa abertura de vários comentários, para que se releia a própria asserção, muitas vezes incompleta ou errada, como a minha, sobre esse assunto.
Entendi nas palavras do Waldecy, a importância do ECUMENISMO, QUE NOS PROPICIA AMARMOS O NOSSO SEMELHANTE MUITO ALÉM DOS SEUS ATRIBUTOS ACIDENTAIS...
Difícil, mas, não impossível!
Anônima SF

Anônimo disse...

Excelentes os comentários. Acho que o silêncio é realmente o caminho para nos conhecermos melhor e só assim poderemos nos aproximar do outro, entendendo suas limitações e diferenças conosco e portanto amando-o verdadeiramente, com aquele amor desinteressado que Cristo nos ensinou e Thomas Merton tão bem encarnou em sua vida e deixou para nós através de sua obra. Obrigada Waldecy por me dar esta oportunidade de desfrutar desse tesouro.