05 fevereiro 2013

Civilização de hienas

"Lá embaixo, perto do rio, numa grande construção limpa e branca, havia um colégio dirigido por irmãos maristas. Nunca entrei nele, mas era tão limpo que me assustava. Eu conhecia dois rapazes que frequentava aquele colégio. Eram filhos de uma pequena senhora, dona da confeitaria defronte da Igreja de St. Antonin. Lembro-me deles como sendo muitos simpáticos, agradáveis e bons. Nunca ocorreu a ninguém menosprezá-los por serem muito religiosos. Que diferença em relação aos produtos saídos do liceu!

Quando penso em tudo isso, impressiona-me o tremendo peso da responsabilidade moral que os pais católicos têm sobre os ombros por não enviarem seus filhos a escolas católicas. Os que não pertencem à Igreja não entendem isso. E nem poderiam. Na opinião deles toda essa insistência nas escolas católicas é apenas uma estratégia de ganhar dinheiro e pela qual a Igreja tenta aumentar seu domínio sobre as consciências dos fiéis e sua própria prosperidade material. E, naturalmente, a maioria dos católicos pensam que a Igreja é muito rica e que todas as instituições católicas faturam alto, que todo o dinheiro é guardado em algum lugar para comprar pratos e talheres de ouro e prata para o Papa e charutos caros para o colégio dos cardeais.

Não admira que não haja paz num mundo em que se faz todo o possível para garantir que a juventude de todos os países cresça sem qualquer moral e disciplina religiosa, sem a sombra duma vida interior, ou daquela espiritualidade, caridade e fé que - e tão somente elas - podem salvaguardar os tratados e acordos feitos pelo governo.

E católicos, milhares de católicos de todas as partes do mundo têm a consumada audácia de chorar e lamentar o fato de Deus não ouvir suas preces pela paz. Eles desprezaram não só sua vontade, mas também os ditames comuns da razão e da prudência naturais, deixando seus filhos crescer conforme os padrões de uma civilização de hienas."


The Seven Storey Mountain, de Thomas Merton
(Harcourt, Brace, New York), 1948
No Brasil: A montanha dos sete patamares, (Editora Vozes, Petrópolis), 2005, p. 51

4 comentários:

Marcos Paulo B. de Sousa disse...
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Marcos Paulo B. de Sousa disse...

Magnífico!!! Ele foi a um dos cernes da questão e acertou em cheio. Fiquei contente de saber que penso como Thomas e sobretudo de saber que ele pensa assim.

Wilson Edson Jorge disse...

Estudei o chamado curso científico em um colégio marista, de 1956 a 1958. Os conceitos que nos passaram eram muito conservadores, apesar do ensino em geral ser de bom nível. Foi pedido ao responsável pela divisão dos maiores, onde eu estava, para fazer uma palestra sobre sexo que terminou com um conselho bombástico sobre o assunto: "quem não teme a Deus, que tema a sífilis". Quer dizer, entre prós e contras, o colégio foi bom para mim, mas o nível da mentalidade dos professores responsáveis não estava à altura das necessidades daqueles jovens que se preparavam para entrar nesse mundo materialista e competitivo. Meus filhos também estudaram em colégio católico, cujoa maior qualidade foi insentivar as relações comunitárias e uma visão social do ensino e hoje considero-os pais e profissionais exemplares. Minha conclusão, um tanto rápida para esse blog é que, mais importante do que o colégio ser religioso é os pais estarem sempre presente com os filhos em sua vida e transmitirem-lhe seus valores religiosos e, inclusive, uma visão crítica da sociedade para que possam se posicionar em suas decisões. Principalmente, eles têm de se sentir amados pelos pais.

Anônimo disse...

Merton tem razão em fazer esta constatação. Naturalmente que ele já se enquadra num contexto cultural diverso do que vivemos, particularmente falando em educação, dado que o ensino está muito mais a cargo do Estado que da Igreja. O fato é que nesse trecho vemos a sua sensibilidade em relação a uma pedagogia que valorize o ser humano na sua inteireza como é próprio de um homem como ele. Ora, mais do que nunca é preciso resgatar uma educação que olhe para a pessoa como um ser transcendente, do contrário vamos continuar a encarcerar a pessoa nos limites de um mundo somente positivo o qual é limitado e limitador.