02 junho 2014

Vida espiritual

“Ter uma vida espiritual é ter uma vida que é espiritual em toda sua inteireza, uma vida em que as ações do corpo são santas por causa da alma, e a alma é santa por causa de Deus que habita e age nela. Quando vivemos essa vida, as ações do nosso corpo são dirigidas a Deus por Deus mesmo e Lhe dão glória, servindo, ao mesmo tempo, para santificarmos a alma.”

Homem Algum é uma Ilha, Thomas Merton (Verus Editora, Campinas), 2003. p. 95

2 comentários:

Fernando Paiser disse...

Observe os seguintes trechos:

(...)e a alma é santa por causa de Deus(...)
(...)as ações do nosso corpo são dirigidas a Deus(...) servindo ao mesmo tempo,para santificar a alma.

Ora, se são as (boas) ações do nosso corpo que servem para santificar a alma, como pode a alma já ser santa? Como pode a alma ser santa antes que as ações do corpo atuem para santifica-la? Por outro lado podemos imaginar que a primazia é da alma, ou seja, primeiro a alma é santificada e depois ela faz com que o corpo tenha ações santas. Mas por outro lado novamente não parece sermos capazes de santificar a alma se não começarmos com atitudes santas. Ufa! Que paradoxo! Como explicar ou entender isso?

Na verdade esse tipo de raciocínio é típico de quem está limitado ao conceito de chronos. chronos é um termo grego que serve para designar “tempo”. Mas essa expressão designa a passagem, o transcorrer do tempo. É o tempo cronológico: passado, presente e futuro (daí a raiz etimológica chrono ou crono).
Porém, os antigos gregos tinham também outro termo para designar tempo: Kairós. O Kairós pode ser entendido com “no momento oportuno”. Não é um conceito de tempo onde a linearidade passado-presente-futuro, é essencial. Podemos dizer que é o tempo de Deus. Meu pai dizia a respeito do tempo de Deus que “o que já foi, já foi e o que será também já foi”. Porque para Deus tudo é um eterno presente. Pode parecer difícil entender isso mas veja um exemplo: Você fica sabendo que uma pessoa está doente e resolve orar por ela. Mas por algum motivo você não pode rezar por ela naqueles dias e a pessoa piora e morre. Então você sente remorso por não ter rogado por ela “a tempo” e acredita que como ela morreu não adianta mais orar pela sua recuperação.

Essa visão de tempo é humana. Deus não enxerga a historia como uma sucessão de fatos um após o outro. Para Deus tudo está acontecendo ao mesmo tempo e tudo já aconteceu (o que já foi, já foi; o que será também já foi). É possível sim rezar pela recuperação daquela pessoa mesmo depois de sua morte (não me refiro a rezar por sua alma, isso também é válido e necessário, mas digo rezar por sua recuperação física mesmo). Parece ilógico e até insano mas tente ver com o olhar do céu. (Claro que não estou fazendo uma apologia à procrastinação, evidentemente não devemos agir assim). E se a pessoa se recuperou, você pensa que não precisa mais rezar por ela. Ledo engano. Talvez Deus tenha recuperado aquela pessoa ouvindo a oração que você fez no futuro e que, claro. Ele sabia que você faria. Ou talvez ela morresse de qualquer jeito porque assim Deus determinou mas de qualquer modo o seu ato de misericórdia para com a pessoa não foi desperdiçado. Por isso devemos sempre estar conscientes, durante a oração, de que primeiro se faça a vontade de Deus pois na verdade não sabemos nossas reais necessidades nem a dos outros.

Então concluímos, com o Kairós em mente, que mais uma vez Thomas Merton estava certo; a alma santifica as ações do corpo que por sua vez santificam a alma, não necessariamente nessa ordem, ou talvez seja o contrário, entende? Mas não deixe de notar no trecho publicado que a origem dessa interação não é a sua alma ou a sua ação. É Deus! A Ele pertence o tempo (quer chronos, quer kairós) pelos séculos dos séculos, Amém!

André Correia disse...

Entendi, mas não compreendi, per ómnia saecula saeculórum. Amém