07 abril 2014

Equívocos na oração

“Quando, olhando interiormente, examinamos a nossa consciência psicológica, essa visão termina em nós mesmo. Percebemos os nossos sentimentos, a nossa atividade interna, os nossos pensamentos, juízos e desejos. Não é sadio estar por demais continuamente atento a todas essas coisas. A constante introspecção dá uma atenção extremamente ansiosa a movimentos que deviam ficar instintivo e desapercebidos. Quando prestamos demasiada atenção ao que vai em nós mesmos, torna-se restrita e estouvada a nossa atividade. São tanto os obstáculos, que ficamos logo paralisados e incapazes de agir como seres humanos normais.

É melhor, portanto, deixarmos em paz a consciência psicológica ao orarmos. Quando menos mexermos com ela, tanto melhor. A razão pela qual muitas pessoas religiosas acreditam não poderem meditar é pensar que meditação consiste em experimentar emoções, pensamentos ou afetos religiosos dos quais teríamos uma consciência subjetiva. Logo que se põem a meditar, começam a olhar para a consciência psicológica, a descobrir se estão experimentando alguma coisa que valha a pena. Pouco ou nada descobrem. Esforçam-se por produzir alguma experiência interior ou, senão, entregam-se ao desgosto.”

Homem Algum é uma Ilha, Thomas Merton (Verus Editora, Campinas), 2003. p. 42.

Um comentário:

Fernando Paiser disse...

"(...)Esforçam-se para produzir alguma experiência interior(...)" e aí vem o desgosto.
Esse é justamento o erro daqueles que tentam meditar e não conseguem; "Esforçar-se". Creio que todo monge, (e Merton deve estar entre eles) já leu "A nuvem do não saber" ou "A nuvem do não conhecimento" texto da idade média de autor anônimo. É bem isso que Thomas Merton diz nesse fragmento, só que de outro modo. Recomento a leitura. Por enquanto não conheço um meio mais eficaz para alcançar a meditação e dela a contemplação do que um caminho apofático.