07 setembro 2004

Zen e as aves de rapina

Onde jaz uma carcaça, aves de rapina voam em círculo e descem. A vida e a morte são duas coisas. Os vivos atacam os mortos, em proveito próprio. Os mortos nada perdem com isso. Ganham até, desaparecendo. Ou parecem ganhar, se é que devemos pensar em termos de perda e ganho. Será que abordamos o estudo do Zen com idéia de que existe algo a ganhar com isso? Essa pergunta não pretende ser acusação implícita. É, no entanto, uma pergunta séria. Onde se faz um espetáculo em torno de “espiritualidade”, “iluminação”, ou simplesmente de “ligar”, isso muitas vezes acontece porque abutres estão esvoaçando em redor de um cadáver. Esse voltear, esse vôo em círculo, esse descer, essa celebração de uma vitória não é o que significa o estudo do Zen (embora possa ser um exercício altamente útil noutros contextos e enriquece as aves de rapina).

O Zen a ninguém enriquece. Não há ninguém para ser encontrado. As aves podem vir e esvoaçar em círculo por algum tempo no lugar onde se pensa estar o Zen. Mas, bem depressa, deslocam-se para outras paragens. Quando já se foram, o “nada”, o “ninguém” que ali estava de repente aparece. Isto é o Zen. Ali estava o tempo todo, mas os abutres não o viram, pois não era seu tipo de presa.

(Nota do Autor)

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